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  • É tudo noite : Resenha

    por Ana Luiza Tonietto Lovato

    Quando li É tudo noite, da Fátima Parodia, não pude evitar uma imagem que guardo desde a infância. Minha mãe, assim como minhas tias e avó, para onde quer que fossem, jamais saíam sem um tricô. Assim que se sentavam em círculo, cada uma puxava o seu trabalho e, entre uma história e outra, materializavam mantas e casacos com aquelas mãos irrequietas. O que me impressionava nesses encontros não era o que falavam, mas a destreza com que manejavam as agulhas e o fio. Com apenas isso, duas agulhas e um fio, teciam uma infinidade de pontos que, combinados entre si, resultavam em peças sempre inéditas, capazes de tornar belo e aquecido qualquer um que as vestisse.

    É assim, encantada, que me sinto em relação aos 11 contos que compõem o primeiro livro solo dessa autora portoalegrense. Com as palavras que tira de um inseparável balaio de emoções, Fátima tece frases de pura poesia, o ornamento para o mais miúdo cotidiano que escolheu nos apresentar. Através de personagens comuns, recolhidas das ruas por onde passamos sem nem perceber, ela fala dos medos que atravessam o tempo e se perpetuam na conversa dos velhos e das crianças. Medos que são os nossos e que, não poucas vezes, preferiríamos deixar camuflados na noite.

    Mas Fátima não se intimida. Com sua prosa precisa vai entremeando também o fio da coragem nesse trabalho incessante de tecer a vida. Com a persistência de quem não pode viver sem fazer literatura, aquece-nos com a beleza dos seus textos, mostrando que do outro lado da escuridão, está a luz. A luz das suas palavras.