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    leitor protagonista

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  • Odalisca

    por Irka Barrios

    Malena disse que não se arrependia.

    − Nem um pouco – frisou as sílabas, movimentando os lábios com exagero.

    Soltou o cabelo e inclinou a cabeça bem para trás, o coco tentando tocar as costas, como era seu costume desde a adolescência. Balançou o pescoço para lá e para cá, a boca entreaberta e os pesados cachos a dançar em volta da cintura. Serviu mais uma dose de bourbon, piscou para Diogo e rumou para o deck. A porta de vidro deslizou e nós permanecemos ali, embasbacados. Da mesa que dividimos durante as últimas quatro horas também era possível apreciar as cores do fim de tarde, com um atrativo a mais: a sobreposição da silhueta de Malena. Os seios pequenos, os braços finos a afastar os cabelos e as longas pernas adequavam-se ao todo, como parte da paisagem.

    Paulo Renato deu um cutucão no braço de Diogo:

    − Fica na tua!

    − Aaaauuu, pai – o garoto reclamou.

    − E você – dirigiu-se para mim, com o dedo em riste – tá feliz com a confusão?

    Repeti, pela décima vez e em tom sussurrado, que a situação era provisória. Malena arranjaria um lugar, precisávamos, apenas, acolhê-la neste momento conturbado. Eu nunca deixaria minha amiga na mão e, poxa, nossa casa com dois quartos sobrando, carro extra na garagem, Paulo Renato e eu bem empregados, Diogo na faculdade, qual o problema em ajudar?

    Ele resmungou alguma coisa que não ouvimos e subiu para o quarto, onde passou o resto da noite. Diogo me ajudou a retirar a mesa e ajeitar a cozinha.

    − Será que é tudo verdade?

    Olhamos, juntos, para fora. Malena continuava na mesma posição: sentada na ponta da cadeira de abrir, uma perna reta, o pé apoiado no piso e outro joelho curvo. A cabeça inclinada como se aguardasse o brilho da primeira estrela e os cachos ao sabor da brisa. Brincava, soprando o tecido do guardanapo lilás.

    − Ela sempre inventou histórias – respondi.

    Na tarde seguinte, invadi o quarto de hóspedes:

    − Conta mais do sultão.

    − Ah – ela disse – é aquilo que contei. Não tive um encontro privado, eu não era das favoritas.

    − Mas…

    − Nada demais – Malena me interrompeu – um harém não é como nosso imaginário cria. É só um bando de mulher que deve ficar linda e loura, à disposição.

    − Mas e as roupas? Os presentes?

    Malena gargalhou. Disse que se eu a imaginava de odalisca, num grande salão de banho, massageada por eunucos, me enganara feio.

    − Infelizmente – completou. Gesticulou com as mãos, convidando-me a sair, precisava trocar de roupa. Assim, como se nunca tivéssemos dividido intimidades.

    Decepcionada, afastei-me de Malena. Compareci a compromissos que antes eu recusava, fiquei muito tempo fora de casa, queria castigá-la, fazer com que sentisse minha falta.

    Três dias depois, entrei em seu quarto sem bater e me deparei com Diogo nu, admirando o umbigo de Malena. Levei uns segundos para compreender. Dança do ventre? Véu?

    − Não acredito que você está contando a história que me negou.

    Furiosa, bati a porta, enchi um copo de bourbon sem gelo e sentei na varanda. Acendi um cigarro esquecido sobre a mesa, mas não sabia mais tragar. Tossi, me engasguei, os olhos lacrimejaram e mesmo assim virei o copo.

    Na semana seguinte foi a vez de Paulo Renato.

    − É Madalena, mas tirei o da – ela dizia quando os flagrei. Virou-se para mim e tocou de leve meu quadril – o da é para pessoas especiais.

    A antipatia inicial virou amizade e Paulo Renato não demorou a deitar na cama de Malena.

    Chorei, bebi, saí dirigindo feito louca. Passei cinco dias fora, sem dar notícia. Dormi cada noite num hotel, também precisava variar.

    Malena me esperava, sentada na soleira da porta da frente, no dia em que minha resistência fracassou.

    − Tá bem – ela disse. Me abraçou forte, me beijou com a ternura dos amores esquecidos e choramos juntas. Durante a noite, invadi o quarto dela mais uma vez. A odalisca me esperava, só afastou as cobertas para que eu pudesse me aconchegar.

     

  • Tudo a mesma m.

    por Irka Barrios

    − OK – disse o pai após um suspiro − vamos fazer de conta que é uma corrida de carros. Me empresta teus Hot Wheels – apontou para a coleção do filho. − Não só os novos, pega os velhinhos. Os mais simples também, pega todos.

    Esticou o tapete em trilho da cozinha e posicionou os carros nas margens. Depois escolheu os mais valiosos e deixou numa posição privilegiada, em cima de uma almofada grande, para assistir a corrida.

    − Esses aqui são os deputados e senadores da república. E esses – mostrou os carros menos valiosos – somos nós.

    − Nós? – o menino se interessou.

    − Os eleitores – explicou o pai. – Somos nós que escolhemos aquele grupo de carros mais bonitos que assistem a corrida da almofada.

    Antes do filho perguntar por que os eleitores eram os carros feios e os políticos os bonitos, adiantou-se:

    − Deputados e senadores ganham bem.

    − E por que você não quer ser deputado?

    − Ah, filho. Não é tão simples. Para se eleger você tem que ter muitos destes carros feios votando em você. Porque o deputado é o cara que representa o povo.

    − Mas os carros bonitos não são os mais caros?

    − Vamos falar da corrida – o pai desviou o assunto. Achou traumático explicar como e porque os deputados ficavam ricos. Pegou um carro vermelho e outro azul. Posicionou-os na largada. – O vencedor manda em todos.

    − Para sempre? – o filho abriu bem os olhos.

    − Em alguns casos sim, mas aí são monarquias. Reis, quero dizer. No Brasil não. O vencedor manda por quatro anos.

    − E todos os carros bonitos obedecem?

    − Não – o pai separou os carros bonitos em dois grupos − alguns obedecem, os  aliados. Os que desobedecem são a oposição.

    − Ah – o garoto ergueu uma sobrancelha − e os que desobedecem vão presos?

    − Não, filho – disse num tom repreensivo − é saudável ter oposição. Quando não há, temos um caso de ditadura. É quando um só carro corre, sempre sozinho, e ninguém o atrapalha. Quer dizer que ele vence sempre – segurou um dos Hot Wheels mais valioso e o fez deslizar pelo tapete.

    − E quem assiste, gosta?

    − Uns sim, mas a maioria não. Mas o Brasil não tem isso – sentiu uma coceira na garganta. Tossiu alto até escorrer lágrimas dos olhos. Foi até a pia, serviu um copo com água e voltou para o lado do garoto que empurrava os carrinhos rumo à linha de chegada.

    − Esse ganhou, pai – mostrou o carro vermelho.

    O pai riu.

    − Ganhou, mas o piloto foi retirado do pódio.

    − Mas – o garoto ficava cada vez mais confuso – isso vale?

    − Vale, se os carros bonitos que assistem a corrida da almofada decidirem que sim.

    − E então o segundo lugar ganha, é?

    O pai riu de novo, bem alto.

    − Não filho, em casos assim o copiloto fica no pódio.

    − Ah, mas carros bonitos que não gostam do piloto podem gostar do copiloto? Por que não colocaram logo o copiloto a dirigir?

    − Porque, no caso do nosso país, o copiloto não venceria nem corrida de tartaruga.

    O garoto ficou olhando para o tapete. O pai se absteve de explicar o que fazia os carros bonitos que assistem a corrida da almofada gostar ou desgostar do piloto. Também não quis contar que, no nosso caso específico, mesmo não havendo lugar no pódio para o segundo lugar, ele participava da festa e bebia a champanha do copiloto.

    − E o que acontece com o piloto que venceu a corrida?

    − Sai da pista – o pai calou-se uns instantes, procurando as palavras menos dramáticas. – Ah, sai da pista e fica um tempo sem correr, como castigo.

    − Hhhmmm, o piloto expulso fez alguma coisa grave, como trapacear ou bater em alguém?

    − Mais ou menos. Ah, quer saber? – o pai alterou-se – nesta corrida maluca todos fizeram coisas graves, pilotos, copilotos, os carros que assistem da almofada, comentaristas. Alguns cometeram erros gravíssimos, como atropelar os carros feios que assistem. E segue tudo a mesma m…

    − Essa corrida não tem muito sentido – disse o garoto após recolocar os carros na linha de partida. − Mas tem alguém que organiza, né? Que decide se é justo ou não gostar do piloto. Um árbitro, como no futebol.

    − Rodrigo, me dá uma mão aqui – a mãe gritou do quarto – é urgente.

    O pai correu para ver o que se passava. Chegou no quarto e ouviu os resmungos da mãe: “hhhhmmm, Jesus, nunca vi tanta sujeira”. Abanou o nariz para afastar o cheiro que recendeu no quarto, foi ao banheiro buscar uma bacia com água e sabonete. Só os lenços umedecidos não dariam conta. Após alguns minutos,  voltou à sala com as fraldas sujas na mão:

    − Onde eu estava mesmo?

     

  • Fim de feira

    por Irka Barrios

    Gemma não apareceu na quarta-feira após a Páscoa e achamos que decidira estender a visita na casa do filho. Na semana seguinte também não apareceu. Ela não ficaria tanto tempo em São Paulo, reclamava que a nora não a queria por lá, então matutamos sobre outros motivos para a ausência. Poderia ser um resfriado, nesta época de mudanças de temperatura, ou a temida gripe A. Judite protestou, Gemma vivia se exibindo com seus hábitos de alimentação saudável e cuidados físicos. Contava que fazia hidroginástica duas vezes por semana, massagem estética, acupuntura e shiatsu com um senhorzinho japonês que curava as piores dores com a pressão do polegar. Uma mulher de hábitos tão saudáveis não ficaria doente por duas semanas.

    Na terceira falta sem notícia, começamos a nos preocupar de verdade. Sentadas em nossas cadeiras, observamos a dela vazia, um tanto contrariadas. Passamos a teorizar se Gemma possuía algum segredo, uma doença que desconhecíamos. Artrite, quem sabe? Cálculo renal? Sabíamos tão pouco dela quanto de nós mesmas. Nunca fomos confidentes, nem o número do telefone havíamos trocado. Ela teria e-mail? Whatsapp? Nervosa com nossa passividade, Judite se prontificou:

    − Sei qual é o prédio dela. Vou bater lá.

    Saiu com seu balançado de ancas volumosas, os quadris dançando para lá e para cá, e prometeu voltar em meia hora. Não podíamos esperar, Jandira e Ivete tinham compromisso, mas a curiosidade foi tanta que pedimos outro café e concordamos, todas, em atrasar os afazeres do resto do dia.

    Judite voltou no tempo previsto, cabisbaixa. Não conseguira contato, Gemma não quis recebê-la. Mesmo assim, especulou o porteiro o quanto pôde. O homem disse que tudo seguia normal, Gemma ainda saía para suas atividades, embora ele tenha notado um ar mais fechado na senhora tão alegre. Fora isso não sabia de mais nada, não era empregado bisbilhoteiro do tipo que fica cuidando a vida dos moradores. Desanimadas com a falta de consideração, bebemos os últimos goles de café e partimos.

    Na quarta-feira seguinte a ausência foi assunto inicial, apenas. Mantivemos a cadeira de Gemma vazia e comentamos a queda de qualidade da banca do Beto. O moço, sempre tão simpático, oferecia as melhores frutas e verduras da feira. Contava que produzia tudo em seu sítio, para os lados de Águas Claras. De um mês para cá, entretanto, algo aconteceu. As frutas perderam o viço e as verduras murchavam no dia seguinte após a compra. Judite mencionou a amizade que havia entre Gemma e Beto:

    − Ela sempre trazia uma fatia de bolo ou um biscoito caseiro para ele.

    − Da última vez que sentamos as cinco – Ivete lembrou – Gemma não ficou muito. Tinha voltado da banca do Beto com as mãos vazias e uma cara estranha.

    − Lembram que ela dizia que Beto dava os ares de um namorado da juventude? – disse Jandira.

    O assunto abriu sorrisos e nossos livros de memórias. Nostálgicas, bebemos o café saboreando os amores contidos do passado. Acertamos a conta, pegamos as sacolas de produtos comprados no concorrente e seguimos nossas vidas. Nenhuma cogitou ir até Beto perguntar se ele sabia de algo.

    Na mesma quarta-feira em que a dona do café solicitou a cadeira que Gemma ocupava, notamos a falta do Beto. Não caminhávamos mais até sua banca, desistimos de comprar lá. Ouvimos falatórios, a maior parte dos produtos dele acabava ficando para a xepa de tão ruins.

    E assim seguiram-se diversas semanas sem maiores explicações. A ausência de Gemma tornou-se normal, não falávamos mais nela e a nossa mesa do café agora tinha quatro, não mais cinco cadeiras.

    Uma tarde, no supermercado do bairro, a encontrei. Vinha altiva, o carrinho de verduras frescas conduzido pelo braço cheio de pulseiras tilintantes, como na época em que flertava com Beto. Não me contive e perguntei o que havia acontecido para ela tomar uma decisão tão estranha.

    − E o Beto? – A pergunta de Gemma se interpôs ao questionário que eu começava a fazer.

    − Fechou a banca. Logo depois de você…

    Gemma me interrompeu mais uma vez, com certa tristeza no olhar.

    − Pois é – limitou-se a dizer.