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    conto

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  • Parque del plata

    A cabana é construída por troncos de madeira caiada, rústica, com apenas
    uma porta pintada em ocre e cheira à maresia e saudade. Aqui não correm
    fios de energia, mas sim teias de aranhas. A iluminação, à noite, é
    feita através da luz difusa proveniente de lampiões abastecidos
    regularmente com querosene. Sentada em toras empilhadas num simulacro de
    banco, Marina mistura-se ao silêncio da varanda. Olhar fixo nas lajotas
    vermelhas do chão, sem vê-las. Tem o verde dos olhos realçado pelo
    branco rajado também de vermelho, e a pele do rosto, normalmente

    relaxada, suave, agora tensionada. O choro incontido escorre e conta sua
    história em pequenos lagos junto aos seus pés. O vento invernal lhe
    fustiga o rosto e carrega consigo a lembrança de que Rita não é mais sua
    namorada. Rita perdeu a vida ao ser colhida de surpresa pela F-1000 que
    não freou. Rita deixou de ser.

    A vida provinciana jamais aceitou que o amor fugisse do padrão. Apesar
    da discrição de ambas, todos sabiam do carinho que nutriam uma pela
    outra. Inicialmente, à boca pequena, muxoxos foram crescendo,
    tornaram-se falatório e chegaram aos ouvidos dos pais de Ritinha, menina
    bonita, cobiçada pelos rapazes do município praiano. Conversa séria e
    ameaças não a demoveram do amor dedicado à Marina. Ritinha enojava-se
    diante da agressividade dos homens, e encantara-se pela promessa de amor
    pacífico que sua amiga propunha. Em segredo, temia a sensação de adagas
    no ventre, como descrito por Veríssimo no livro lido por obrigação escolar.

    O que era para ter sido apenas mais uma tarde de passeio com Perro,
    tornara-se o dia mais bonito da vida de Marina. O cão volátil escapara
    com facilidade da guia e corria entre as dunas, saltando feito lebre num
    jogo de acha e esconde. Logo após subir um cômoro mais alto, sumiu. Ela
    preocupou-se ao ouvir um grito agudo, e como um raio alcançou a origem
    do chamado. Perro dançava em duas patas, à volta de uma menina um pouco
    maior que ela em altura, mais esguia, trajando um vestido jardineira em
    xadrez vermelho. Pediu desculpas segurando o cachorro e recebeu um
    sorriso alvo como resposta, sinal de que estava tudo bem.
    Tornaram-se amigas imediatamente. Rita contou-lhe sobre a vinda abrupta
    dos pais para o Uruguai e como havia sido afetada pela mudança de Porto
    Alegre, capital, para aquele buraco. A sensação de deslocamento, a falta
    que faziam as gurias do colégio. Marina não se ofendia com as colocações
    de Rita. Conhecia as limitações de sua cidade natal e tinha ciência de
    que as palavras vertidas pela boca de Rita eram doces ou, ao menos,
    imaginava.

    Machuccas não planejara ir até a casa de Ritinha naquela tarde. A
    caminhonete do pai estava pronta na oficina e sua obrigação, buscá-la.
    Aproveitando o caminho oportuno, rumou em direção à residência dos
    Amaral, na esperança de cativar aquela brasileira que tanto espicaçava
    seu coração com recusas e bloqueios. A casa parecia deserta, fechada, e
    quando, quase ao sair, ouviu um gemido baixo, deixou de lado qualquer

    pudor e aproximou-se da janela do quarto da amada. A veneziana
    entreaberta permitia que um facho de luz fino, iluminasse o corpo nu de
    Ritinha, arrepiada de frio e prazer proporcionado por Marina. Machuccas
    sentiu o latejar da cabeça malhando boatos em verdade. Fora rejeitado em
    favor de Marina. Com ódio nos punhos, socou o vidro da janela,
    quebrando-o, esquecendo ali algumas gotas tristes de sangue.

    Marina ouve o quebrar das ondas, levanta-se e caminha em direção à
    praia. A porta com o amarelo descascado permanece fechada. Ela não sente
    o primeiro passo dentro da maré. Suas pernas estão encharcadas ao dar-se
    conta do destino que seu luto escolheu. Num átimo, suas lágrimas
    perdem-se no mar de sal.

    Lobo

     

    Foto: Milena Reckziegel

  • Fragilidade d’um ser humano

     

    por Caroline Fortunato

     

    Tomás, um brasileiro que não aparenta quarenta anos, moreno, forte e baixo, passa as férias no Egito.

    Junta-se a um grupo de turistas que exploram o museu. Interessados e muito curiosos, pedem ao guia que lhes mostre e explique tudo, não deixando escapar nada.

    O guia, assim, passa a gostar daquela turma de estrangeiros específica e atende o pedido com prazer.

    Leva o grupo, inclusive, por um corredor pouco visitado, já que é muito complexo. Explica que as salas que o corredor dá acesso são extremamente compensatórias do ponto de vista cultural.

    Porém, além da complexidade (parece um labirinto) o corredor é surpreendentemente longo. E não há sinal para o uso de seus telefones celulares nem ali, nem depois dali.

    Toda aquela turma começa a ter, em silêncio, um sentimento de que não saberiam voltar caso estivessem sozinhos. Mas chegam ao objetivo.

    Nas primeiras salas, a sede por conhecimento presente em cada indivíduo aflora. Tomás, empolgado, olha casualmente o guia e, no entanto, nota algo estranho. Mas julga ser coisa de sua cabeça, esquece e se volta para os artefatos.

    Os turistas decidem mudar de sala. Estavam acabando a visitação, logo teriam de retornar, cada um possuía suas obrigações em um mundo burocrático e externo.

    Solicitam ao guia e percebem que há algo de muito errado.

    – Quem são vocês?

    Todos se entreolham. De início pensam que é alguma brincadeira. Uma brincadeira de muito mau gosto – além de infantil; oxalá!

    Só depois constatam que o guia, não se sabe o porquê, perdeu a memória.

     

     

    Caroline Fortunato é estudante de Letras na Usp, contista na revista Labirinto Literário, membra de antologias e escritora na editora Selo Jovens (Selo Talentos).

     

  • Dissabor

    por Alessandra Barcelar

    Marcão chegou de mansinho. Raimunda gozava, então… De boa saúde. Ele se achegou, aconchegou-se e adentrou o universo da ingênua Raimunda. Via das dúvidas, ela se aninhou também e foi ficando… Ficando… Grávida de cinco meses. Abandonada, por ele e pela família, adquiriu doença de rico: depressão. Jogou-se num despenhadeiro com os juros de sua inútil vida, toda dentro de si.

    − Que investimento mais besta! – disse ao vago da hora.

    Ruminava esse pensamento enquanto sentia as dores entorpecidas por uma garrafa de cachaça. Antes de começar a beber, Raimunda leu o rótulo que estampava em letras garrafais: CAXASSA DA BOA! E com a devida exclamação… Bebeu xingando a besta que tinha escrito isso e ainda errado.

    − Vagabundo! − tergiversou. Como ela, diria a mãe.

    Passara a vida sonhando com fadas. Escrevia com todas as forças de seu coração, como dizia Magda, uma de suas leitoras. Só ela a compreendia e a incentivava. A mãe achava que o que ela fazia era coisa do diabo.

    − Onde já se viu uma pessoa de letrinhas num papel? Uma pessoa tem que ter alma. Mas, almas de papel? Só a minha filha maluca – insistia a mãe. Foi ao Padre Gonçalo confessar o pecado da filha, resoluta.

    Não tardou, o padre apontou no quartinho apertado e foi logo mandando Raimunda rezar três pai-nossos e duas ave-marias. Foi um bate-boca dos diabos, quero dizer, dos deuses.

    − Só isso, Padre? − retrucou a moça.

    − Não é lá um pecado tão grande, mas a ignorante de sua mãe me obrigou a vir lhe dar a absolvição, senão não cuida mais da limpeza da Capela. Chantagista!”

    − Mas não sou eu que tenho que lhe contar meus pecados?

    − Por quê? Tem outro maior? Assim vou perder a faxineira voluntária.

    − Estou grávida do Marcão. Ele caiu fora.

    − Sem casar?! Oh, meu Santo Pai! Multiplique tudo por mil, tanto os pai-nossos quantos as ave-marias. E cuide bem do pequeno órfão de pai.

    − Mas, se eu fosse casada, não seria um pecado maior?

    − Mais do pai, que considerou o filho um ser abandonável.

    − E se eu abortar, o pecado não será maior do que maior?

    − O que é agora?! Está querendo me confundir? Além de escrever e inventar alma de papel, como diz sua mãe, sabe interpretar melhor as escrituras do que seu confessor? Pois pode multiplicar tudo por dois mil.

    − Ora, nem Jesus faria uma multiplicação dessas. Ele só multiplicou os pães para os esfomeados e disse que a gente só devia crescer e se multiplicar. Ele não falou nada em casar.

    − Esqueceu-se de que ele multiplicou também o vinho e, justamente, numa festa de aniversário? – esticou o homem santo, titubeando, ainda sem entender aonde Raimunda querida chegar.

    − Dá licença, Padre. O senhor trocou até o evento… Era uma festa de casamento, mas ele estava se divertindo e, cá entre nós, ficar sem vinho numa hora destas! E tem mais, ele nunca mais falou sobre esse assunto de casamento. Acho que é porque sempre falta alguma coisa. Nunca ouvi ninguém elogiar uma festa, principalmente, de casamento. Ou a noiva está feia, ou a comida está ruim ou…

    − Ah, quem tem que me dar licença agora é você. Eu hein?! Louca imunda − o Padre saiu pisando duro.

    Raimunda olhava o mundo como se estivesse acima das nuvens. Criava o seu universo e nele governava absoluta. Dona Magda adorava o que ela escrevia e sempre, além de uma quantia em dinheiro, trazia roupas novas ou uma maquiagem. Era uma leitora especial. Ao descobrir que ela vendia as suas histórias a uma escritora de verdade, a desilusão foi demais. Pegou-a pelos cabelos e lhe deu dez tapas na cara. Como era justa, cinco em cada uma das faces. Isso, sim, achava que Cristo aprovaria.

    A polícia lhe deu razão e ainda indiciou Dona Magda por violação de direitos autorais. Mas o povo não perdoa. E em termos de povo, o Brasil é número um na desclassificação do seu povinho. Aliás, a maioria não sabe nem ler. Agora, além de uma louca imunda, pois inventava gente com alma de papel, era uma safada vagabunda, pois seria mãe solteira. Já fizera até um poema sobre a cumplicidade entre seu nome Raimunda e suas rimas. Nome fácil de rimar até com palavrões. Que pena que sua leitora era também uma farsa, oriunda dessa gente que feria a sua imaginação tão fecunda e que machucava sua alma, de uma honradez profunda.

    − Que licença poética é rimar em uma prosa – pensou, suspirando. Não daria a ninguém a satisfação de assistir ao seu sofrimento. Era pessoal e intransferível o seu livre-arbítrio, e que a desculpassem pela evidente redundância do escrito, mas isso também era só da sua conta.

    Então, fez o que julgava a coisa certa e voou no seu precipício. Sempre quis ser um pássaro. Morreu feliz, morreu poeta. Tudo agora era só dela: sua vida e sua morte.

     

    Alessandra Barcelar é historiadora, vive em São Paulo, onde nasceu e atua na área da Saúde. Colaborou para revistas de literatura como Amálgama, Gueto e Revistas Luso-Brasileira. Participou do laboratório de escrita criativa com Evandro Affonso Ferreira. Atualmente integra o projeto de leitores voluntários no Instituto de Infectologia Emílio Ribas e Contadores de histórias na Rede Social Senac.

  • Canino

    por Lobo

    Você lê. Deitada no sofá, o dia lá fora caminhando, inexorável. O sol mantém o ritmo programado, enquanto você lê. A luz que entra na sala me mostra que o short escolhido hoje é menor que o de ontem, tuas coxas expostas reluzem. A blusa também é preta, pequena, cavada, antevendo um calor que ainda não se confirmou. O vidro da janela, que ontem à noite esquecemos aberta, está fechado, barrando a brisa fria. Agora de manhã sonhei contigo, conosco. Corríamos, logo eu, que odeio correr, na praia. Confesso que a sensação de liberdade era inebriante. Sentia a maresia na boca, não suporto esse salgado que gruda em tudo, mas no sonho era bom. Tu sorria, ao meu lado. Um sorriso honesto, infantil. Eu sorria junto. Acordei de felicidade, existe isso? Acho que até nosso cérebro reptiliano compreende que ninguém foi feito para suportar tanta alegria. Ao levantar te encontrei deitada no sofá da sala, teus olhos percorrendo as páginas, concentrada. Tomo água, tentando livrar minha língua do mar dos sonhos, e me sento ao teu lado, à espera do primeiro carinho, do início das atenções de hoje. Ainda não passa um dia sem que eu me aproxime e sinta esse misto de admiração e ternura. Não sei dizer desde quando isso acontece, mas sei exatamente como.

    Eu bebia, muito. Não importava o lugar ou a bebida, eu tinha uma sede caótica. Comportamento que não é muito bem-visto hoje em dia. Veja bem, eu entendo as razões daqueles que torcem o nariz diante disso, mas ninguém demonstrava o menor interesse no que tinha me levado a beber. Até que acordei num banco de parque, ainda sob os efeitos de mais uma noitada, contigo me olhando. Teu olhar paralisou meu bocejo incipiente e, de boca semiaberta, vi teu passo decidido em direção ao banco. Fui obrigado a me aprumar, liberando espaço para que você sentasse. Não trocamos uma palavra. Durante alguns minutos, para mim uma eternidade, pude sentir teu perfume, mistura de sabonete e suor, característico de quem gosta de se exercitar pela manhã. Você cuidando das folhas sob o jugo do vento. Eu calado, numa mistura de medo e veneração. Até que num impulso rápido, você se levantou e disse: Vem comigo!

    Desde então vejo teu cabelo grudado nos azulejos do banheiro. E me assusto quando tu submerge metade do rosto na bacia com água fria e fica lá parada, numa posição que parece desconfortável. Ao teu lado a precariedade de tudo me parece pequena, ínfima. Pouco me importa se as geleiras estão derretendo e os oceanos subindo. Somos todos perecíveis. Que ao menos, enquanto vivos, possamos ter alguém que nos olhe, proteja, ame e confie. Uma espécie de gorilas não tem mais seu habitat? Adaptem-se ou busquem refúgio na glória da inexistência. Exceto as abelhas, gosto das abelhas. Alguém podia fazer algo em relação às abelhas.

     

    Lobo sabe que movimento é vida. Antissocial, uiva e escreve.

  • Por uma vida de merda

    por Alex Xavier

    Olavo queria ser escritor, mas não havia sofrido o suficiente. Carregava uma bagagem inútil de boas lembranças e não conseguia tirar histórias geniais dali. Há alguns meses, pensou ter encontrado uma fagulha de drama inventivo ao ler uma reportagem sobre adultos com Déficit de Atenção. O artigo falava de pessoas distraídas. Esqueciam coisas bobas, deixavam vários projetos pela metade e não tinham paciência de escutar ninguém, cortando os outros no meio das frases. Achou que isso o definia e ficou aliviado. Tinha uma desculpa química para, aos 33 anos, ainda não ter assinado nem um simples conto ou um poema de rimas pobres. Recomendado por um amigo, foi atrás de ajuda psiquiátrica. Assim, esse jovem esguio e atraente criado no Leblon chegou ao meu consultório, em Laranjeiras, esperando minha confirmação do seu problema para desandar a escrever.

    Tu é apenas um pouco egocêntrico e precisa brigar contra a preguiça, sentenciei na terceira sessão, afastando de vez a ideia de receitar ritalina para o suposto TDAH. Em busca de uma razão para ser triste, Olavo ficou decepcionado. Defendeu que a angústia é essencial, estimula a criatividade. Afinal, seus autores preferidos tiveram vidas de merda, com traumas familiares, desilusões amorosas, problemas financeiros, limitações por doenças ou vícios e inúmeras crises existenciais, levando-os, invariavelmente, à autodestruição. E a inspiração surgiu dos anos miseráveis e não dos momentos de respiro.

    As pessoas costumam fazer terapia porque não conseguem ser felizes, comentei. Não é meu caso, doutora, respondeu antes de ressaltar que, no geral, não guardava frustrações, não daquelas boas que geram uma obra-prima. Tentei afirmar que, desde a infância, era improvável alguém não ter passado por momentos difíceis como todo mundo. Meus pais me davam de tudo, disse o pobre menino rico. Ganhava Mega Drive no aniversário, Lego no Dia das Crianças e Caloi no Natal. Ia de férias pra Disney no verão e pra Bariloche no inverno. Recebia mimos dos avós, das tias, dos padrinhos, da empregada. Nenhum bom escritor sai do paraíso, doutora.

    Era difícil me compadecer por seu dilema de pequeno burguês da Zona Sul. Confesso, porém, que fiquei fascinada pela ideia de alguém se agarrar aos momentos ruins em vez de tentar esquecê-los, como a maioria dos meus pacientes. Só pra provocá-lo, recorri à minha própria estante de clássicos. Goethe, por exemplo. Tinha a ver. Veio de berço de ouro, era nobre, estudou nos melhores colégios, viajou pela Europa e usufruiu do ambiente aristocrático, era um playboy. Sim, Olavo concordou, mas só fez algo que prestasse quando gamou numa mulher casada, tomou um fora e escreveu “Os Sofrimentos do Jovem Werther”. Já ele nunca havia sofrido por amor, nem uma rejeiçãozinha que fosse. Falamos um pouco da sua vida amorosa. Sempre esteve cercado de mulheres maravilhosas, algumas celebridades até. No fim, costumava se cansar delas e terminar. Naquele momento, saía com a estrela da novela das nove, com quem todos sonhavam. Na manhã daquela sessão, ela havia levado o café na cama pra Olavo vestindo apenas uma camiseta velha dele. Nunca fiquei amargurado no meu quarto socando a parede e perguntando aos céus por quê, dramatizou. Jamais escrevi cartas com peso proporcional de paixão e ódio.

    Suspirei, enquanto anotava e grifava “macho manipulador” no meu bloquinho. Resolvi apelar para os mestres da literatura com fama de grandes sedutores. Lord Byron. Ele tinha muitas mulheres em torno dele. Homens também. E inspirou gerações de poetas românticos. Só que antes da sua poesia fazer sucesso todos cagavam pra ele, cravou, com desdém. Segundo Olavo, o autor inglês era apenas um garoto coxo, envergonhado do defeito na perna, todo complexado com os tratamentos. Contou como, depois de famoso, pintores o imortalizaram bonito e perfeito porque o escritor exigia assim. Chamou-o de farsa e ainda disse que, diferente do escritor manco, não pegava nem gripe. Praticava natação e muay thai, comia bem, não fumava, enfim, ele se cuidava. Claro, não vou querer essas doenças da moda dos antigos autores, como tuberculose ou sífilis, avisou. Mas uma enxaquecazinha já resolveria. Lembrou que Cortázar desenvolveu sua obsessão pelo duplo tomando alucinógenos pra acabar com suas dores de cabeça.

    Eu nem sabia mais dizer se o rapaz disparava fatos ou boatos. Mas ficou claro que Olavo não abriria mão da associação entre sofrimento e inspiração. Tornou-se um desafio apontar suas falhas tentando romper o campo de força da soberba e provar que era tão miserável quanto qualquer um de nós. Ele havia se apropriado dessa felicidade arrogante há muito tempo, quando entrou pra televisão. Aos vinte e poucos anos, ainda no curso de Publicidade e Propaganda na PUC, já apresentava um programa de cultura pop. Era conhecidinho dos adolescentes, que curtiam sua banda de um único sucesso. Saiu sem camisa em uma revista, exibindo no peito uma tatuagem de duas pistolas Long Colt 45 cruzadas. A legenda da foto era “jovem de atitude”. E ele acreditou nisso. Agora, sócio mais novo de uma agência laureada em Cannes, ainda discotecava em festas de vez em quando, tirando o set list de um pen drive. Enquanto isso, desejava ser escritor.

    Lá pela sexta sessão, contou que faria uma série de exames de saúde. Felicitei-o, pois é sempre bom se precaver. Sua torcida, porém, era pra descobrir alguma enfermidade. Com sorte, teria uma cirrose, pois passou a virar o caneco na toada de um desses autores beberrões americanos. Brindava a Hemingway com mojitos, a Fitzgerald com gim, a Faulkner com uísque, a Kerouac com marguerita. Também tinha começado a fumar, mas sem a mesma classe de um Vargas Llosa ou de um Nelson Rodrigues com o cigarro na mão. Segurava e tragava como maconha. Não era a mesma coisa. Colocou a ideia de lado por não se lembrar de grandes obras dedicadas ao tabaco.

    Na semana seguinte, Olavo levou seu plano de decadência mais longe ao anunciar ter largado a sociedade na agência de publicidade. Pior, começou a trabalhar em um cartório. Foi o trabalho mais burocrático que encontrou. Passava o dia atendendo pessoas, tirando fotocópias e carimbando papéis. Pense nos grandes escritores brasileiros que passaram anos presos ao funcionalismo público só pela expectativa de alguma estabilidade financeira, teorizou. Primeiro, citou Machado de Assis, um carreirista, de tipógrafo a diretor do Ministério da Aviação. Foram quarenta anos que lhe renderam dezenas de personagens retratados como seus colegas de repartição. José de Alencar, Lima Barreto, Carlos Drummond de Andrade, todos teriam se abrigado à rotina do funcionalismo estatal enquanto escreviam preciosidades.

    Sessão após sessão, meu paciente parecia mais decidido a tornar sua vida um inferno. Curiosamente, ele ficava eufórico ao contar sobre cada degrau superado – no seu caso, regredido – e eu me perguntava se essa alegria não seria prova de que seu objetivo, a alma estilhaçada, estava ainda muito distante. Mesmo assim, houve uma evolução – ou retrocesso, não sei mais dizer. Após tantos exames, Olavo descobriu uma diabetes. Ou melhor, foi considerado pré-diabético, pois o índice glicêmico estava um pouco elevado, indicando uma disposição pra diabetes tipo 2. Se escrevesse uma obra-prima sobre isso seria o primeiro. Com certeza, era reflexo da mudança de hábitos. Havia largado os esportes e comia muita porcaria, chegando a ganhar peso.

    Voltei pra casa dos meus pais, lá no Leblon, revelou na décima sessão. Fiquei inconformada. Sério? Mas em que isso vai ajudar? Tu me disse que foi uma criança tão alegre. Sua justificativa era não conhecer seus velhos tão bem assim. Minhas memórias dessa época são fragmentadas, disse, quero experimentar a rotina com eles agora, com mais consciência do mundo. O jovem imaginava ter perdido muito dessa relação por causa do verniz de lar sadio. Kafka levou o fantasma do pai opressor pelo resto da vida, lembrou. E ele está lá, em “Metamorfose” e em outras obras. O cara escreveu uma carta de cem páginas reclamando do velho, exaltou. Quero esse destempero! Perguntei se seus pais concordavam com o retorno. Como eu imaginava, ficaram um pouco ressabiados. Conforme explicou, com os filhos crescidos, já estavam guardando as energias para os netos. Isso é bom, alegrou-se. Talvez eu consiga provocar algum conflito aí.

    Da namorada atriz não falava há algumas semanas. Depois, li em uma revista de fofoca no consultório do dentista que os dois já estavam noivos quando ele terminou tudo. Como ela era bem mais famosa, ninguém se importou muito com o paradeiro dele. Ia ser mesmo estranho explicar como foi expulso de casa pelos pais e acolhido por um primo no sofá da sala de um estúdio em Niterói. Na décima sétima semana, chegou saltitante ao consultório. Estou sofrendo horrores por amor, vibrou. Mas com esse sorriso largo na cara, questionei. Foi atrás da única mulher que se lembrava de já tê-lo rejeitado. Isadora, uma namoradinha de infância. Tipo um primeiro amor? Mais ou menos, explicou. Eu tinha doze anos, estudava na mesma classe, a gente dançou a noite toda na festa de uma colega e estraguei tudo quando preferi dar meu primeiro beijo em outra menina, mais velha. Isadora nunca mais quis saber dele.

    Na verdade, ele não voltou a trocar nenhuma palavra com a pobre e desprezava seus olhares melancólicos na sala de aula. Foi procurá-la e concluiu que ainda havia mágoas na menina, hoje uma estilista moderninha com sua própria marca. A princípio, ela não aceitou seu convite de amizade no Facebook. Também não adiantou descobrir onde ficava o ateliê dela em Santa Teresa e bater por lá com flores. Ela o considerou um lunático por dar as caras após tantos anos. Olavo só sossegou quando levou um soco do namorado da coitada ao tentar invadir a casa deles. Nunca me senti tão rejeitado, insistiu. Imagino que Jorge Luís Borges compreenderia o que estou passando. Foi quando perdi o compasso. Não queria deixá-lo saborear essa falsa derrota. Borges morou com a mãe castradora até os 70 anos e só se casou quando ela morreu. Antes, teve uma vida de amores platônicos e rejeições. Não é nem um pouco a mesma coisa, estabeleci.

    O caso estava fora de controle. Fiquei preocupada quando o rapaz faltou a duas sessões sem dar qualquer satisfação. Um dia, fui chamada a um hospital pra identificar um moribundo que suspeitavam ser meu paciente. Fiquei surpresa ao me deparar com Olavo, descabelado e barbudo, amarrado a um leito, dopado. Ele foi encontrado no Largo do Machado, maltrapilho, delirando e melecado com Nutella. Tudo indicava que passou dias comendo só aquilo, pois sua taxa de açúcar estava altíssima. Não levava documentos e nem sabia seu nome, apenas tinha o cartão do consultório de sua psiquiatra.

    Lady, please, help my poor soul – soltou ao me ver, remetendo sem pudor às supostas últimas palavras de Edgar Allan Poe.

    Refeito do susto e reunido à família, o pretenso escritor veio até mim uma última vez. Ao chegar, desolado, alegou ter esgotado seus esforços pra dilacerar seu âmago. Restava apenas morrer jovem. Isso também não faria dele um escritor, visto que lhe faltariam obras póstumas. Cogitou, então, o suicídio. As referências, porém, o amedrontavam. Afogado, como Virginia Woolf? Intoxicado com gás, a exemplo de Sylvia Plath? Com cianureto, seguindo Horacio Quiroga? Nunca teria coragem. Mesmo depois de todas as tentativas de se martirizar, ainda sentia o calor da brasa da felicidade e queria viver. Foi quando percebi qual era meu papel nesse tresloucado processo de autoconhecimento.

    Se ainda se sente feliz, só posso concluir que tu não tá na posse de suas faculdades mentais, decretei. Esse estado de satisfação plena com a vida, ignorando toda amargura que te cerca, pode ser classificado como um distúrbio. Pela primeira vez, deixei Olavo mudo por valiosos instantes. Quer dizer, começou reticente, que por me considerar uma pessoa feliz… eu sou… doido? Na verdade, eu nunca usaria esse termo. Mas comentei que, de Platão a Freud, a ligação entre loucura e genialidade sempre existiu. Foi uma epifania discreta, por mais que eu tenha ouvido um leve estampido. Em seguida, Olavo se deu alta, agradeceu comovido e foi pra casa. Enfim, escreveu. Nunca achei tempo de ler seu livro. As seiscentas páginas me deram preguiça. Mas fui ao lançamento um ano depois e ganhei uma edição autografada. Em seguida, isolou-se da sociedade carioca e passou o resto da vida vivendo como um camponês no norte de Minas Gerais. Nunca o procurei pra saber se a inspiração foi Salinger ou Tolstói.

  • Águas do meu batismo

    por Ernani Catroli

    As cores da manhã e o ruído crescente das ondas na areia. Baixa temporada agora. Seguia pela aleia de cascalho que levava ao casarão de dois andares. Pensão do Farol. Ao abrir a porta, Dona Jovita, o semblante rijo.  Mais magra. Cabelos ralos.

    Mas é Milena quem emerge do ambiente. Muitas vezes. Milhares de vezes.

    Toda a nossa louca juventude e aquela gravidez atropelando os dias.

    Faremos, então, o combinado.

    ***

    O lado do quarto onde permaneço mudo e a voz imperativa de dona Jovita. Milena deitada na cama de solteiro. Os olhos aumentados.

    Sobre o criado mudo, a infusão de ervas para ser ingerida aos poucos, conforme recomendação. A pequena maleta aberta sob a luz do abajur.

    O início. O meio.

    A noite antiga. Azul.

    Ouvia-se o mar.

     

    Ernane Catroli é mineiro (Sant’Anna de Cataguases – MG). Reside no Rio de Janeiro. Publica em alguns blogs dedicados à cultura.

     

     

  • Odalisca

    por Irka Barrios

    Malena disse que não se arrependia.

    − Nem um pouco – frisou as sílabas, movimentando os lábios com exagero.

    Soltou o cabelo e inclinou a cabeça bem para trás, o coco tentando tocar as costas, como era seu costume desde a adolescência. Balançou o pescoço para lá e para cá, a boca entreaberta e os pesados cachos a dançar em volta da cintura. Serviu mais uma dose de bourbon, piscou para Diogo e rumou para o deck. A porta de vidro deslizou e nós permanecemos ali, embasbacados. Da mesa que dividimos durante as últimas quatro horas também era possível apreciar as cores do fim de tarde, com um atrativo a mais: a sobreposição da silhueta de Malena. Os seios pequenos, os braços finos a afastar os cabelos e as longas pernas adequavam-se ao todo, como parte da paisagem.

    Paulo Renato deu um cutucão no braço de Diogo:

    − Fica na tua!

    − Aaaauuu, pai – o garoto reclamou.

    − E você – dirigiu-se para mim, com o dedo em riste – tá feliz com a confusão?

    Repeti, pela décima vez e em tom sussurrado, que a situação era provisória. Malena arranjaria um lugar, precisávamos, apenas, acolhê-la neste momento conturbado. Eu nunca deixaria minha amiga na mão e, poxa, nossa casa com dois quartos sobrando, carro extra na garagem, Paulo Renato e eu bem empregados, Diogo na faculdade, qual o problema em ajudar?

    Ele resmungou alguma coisa que não ouvimos e subiu para o quarto, onde passou o resto da noite. Diogo me ajudou a retirar a mesa e ajeitar a cozinha.

    − Será que é tudo verdade?

    Olhamos, juntos, para fora. Malena continuava na mesma posição: sentada na ponta da cadeira de abrir, uma perna reta, o pé apoiado no piso e outro joelho curvo. A cabeça inclinada como se aguardasse o brilho da primeira estrela e os cachos ao sabor da brisa. Brincava, soprando o tecido do guardanapo lilás.

    − Ela sempre inventou histórias – respondi.

    Na tarde seguinte, invadi o quarto de hóspedes:

    − Conta mais do sultão.

    − Ah – ela disse – é aquilo que contei. Não tive um encontro privado, eu não era das favoritas.

    − Mas…

    − Nada demais – Malena me interrompeu – um harém não é como nosso imaginário cria. É só um bando de mulher que deve ficar linda e loura, à disposição.

    − Mas e as roupas? Os presentes?

    Malena gargalhou. Disse que se eu a imaginava de odalisca, num grande salão de banho, massageada por eunucos, me enganara feio.

    − Infelizmente – completou. Gesticulou com as mãos, convidando-me a sair, precisava trocar de roupa. Assim, como se nunca tivéssemos dividido intimidades.

    Decepcionada, afastei-me de Malena. Compareci a compromissos que antes eu recusava, fiquei muito tempo fora de casa, queria castigá-la, fazer com que sentisse minha falta.

    Três dias depois, entrei em seu quarto sem bater e me deparei com Diogo nu, admirando o umbigo de Malena. Levei uns segundos para compreender. Dança do ventre? Véu?

    − Não acredito que você está contando a história que me negou.

    Furiosa, bati a porta, enchi um copo de bourbon sem gelo e sentei na varanda. Acendi um cigarro esquecido sobre a mesa, mas não sabia mais tragar. Tossi, me engasguei, os olhos lacrimejaram e mesmo assim virei o copo.

    Na semana seguinte foi a vez de Paulo Renato.

    − É Madalena, mas tirei o da – ela dizia quando os flagrei. Virou-se para mim e tocou de leve meu quadril – o da é para pessoas especiais.

    A antipatia inicial virou amizade e Paulo Renato não demorou a deitar na cama de Malena.

    Chorei, bebi, saí dirigindo feito louca. Passei cinco dias fora, sem dar notícia. Dormi cada noite num hotel, também precisava variar.

    Malena me esperava, sentada na soleira da porta da frente, no dia em que minha resistência fracassou.

    − Tá bem – ela disse. Me abraçou forte, me beijou com a ternura dos amores esquecidos e choramos juntas. Durante a noite, invadi o quarto dela mais uma vez. A odalisca me esperava, só afastou as cobertas para que eu pudesse me aconchegar.

     

  • Tudo a mesma m.

    por Irka Barrios

    − OK – disse o pai após um suspiro − vamos fazer de conta que é uma corrida de carros. Me empresta teus Hot Wheels – apontou para a coleção do filho. − Não só os novos, pega os velhinhos. Os mais simples também, pega todos.

    Esticou o tapete em trilho da cozinha e posicionou os carros nas margens. Depois escolheu os mais valiosos e deixou numa posição privilegiada, em cima de uma almofada grande, para assistir a corrida.

    − Esses aqui são os deputados e senadores da república. E esses – mostrou os carros menos valiosos – somos nós.

    − Nós? – o menino se interessou.

    − Os eleitores – explicou o pai. – Somos nós que escolhemos aquele grupo de carros mais bonitos que assistem a corrida da almofada.

    Antes do filho perguntar por que os eleitores eram os carros feios e os políticos os bonitos, adiantou-se:

    − Deputados e senadores ganham bem.

    − E por que você não quer ser deputado?

    − Ah, filho. Não é tão simples. Para se eleger você tem que ter muitos destes carros feios votando em você. Porque o deputado é o cara que representa o povo.

    − Mas os carros bonitos não são os mais caros?

    − Vamos falar da corrida – o pai desviou o assunto. Achou traumático explicar como e porque os deputados ficavam ricos. Pegou um carro vermelho e outro azul. Posicionou-os na largada. – O vencedor manda em todos.

    − Para sempre? – o filho abriu bem os olhos.

    − Em alguns casos sim, mas aí são monarquias. Reis, quero dizer. No Brasil não. O vencedor manda por quatro anos.

    − E todos os carros bonitos obedecem?

    − Não – o pai separou os carros bonitos em dois grupos − alguns obedecem, os  aliados. Os que desobedecem são a oposição.

    − Ah – o garoto ergueu uma sobrancelha − e os que desobedecem vão presos?

    − Não, filho – disse num tom repreensivo − é saudável ter oposição. Quando não há, temos um caso de ditadura. É quando um só carro corre, sempre sozinho, e ninguém o atrapalha. Quer dizer que ele vence sempre – segurou um dos Hot Wheels mais valioso e o fez deslizar pelo tapete.

    − E quem assiste, gosta?

    − Uns sim, mas a maioria não. Mas o Brasil não tem isso – sentiu uma coceira na garganta. Tossiu alto até escorrer lágrimas dos olhos. Foi até a pia, serviu um copo com água e voltou para o lado do garoto que empurrava os carrinhos rumo à linha de chegada.

    − Esse ganhou, pai – mostrou o carro vermelho.

    O pai riu.

    − Ganhou, mas o piloto foi retirado do pódio.

    − Mas – o garoto ficava cada vez mais confuso – isso vale?

    − Vale, se os carros bonitos que assistem a corrida da almofada decidirem que sim.

    − E então o segundo lugar ganha, é?

    O pai riu de novo, bem alto.

    − Não filho, em casos assim o copiloto fica no pódio.

    − Ah, mas carros bonitos que não gostam do piloto podem gostar do copiloto? Por que não colocaram logo o copiloto a dirigir?

    − Porque, no caso do nosso país, o copiloto não venceria nem corrida de tartaruga.

    O garoto ficou olhando para o tapete. O pai se absteve de explicar o que fazia os carros bonitos que assistem a corrida da almofada gostar ou desgostar do piloto. Também não quis contar que, no nosso caso específico, mesmo não havendo lugar no pódio para o segundo lugar, ele participava da festa e bebia a champanha do copiloto.

    − E o que acontece com o piloto que venceu a corrida?

    − Sai da pista – o pai calou-se uns instantes, procurando as palavras menos dramáticas. – Ah, sai da pista e fica um tempo sem correr, como castigo.

    − Hhhmmm, o piloto expulso fez alguma coisa grave, como trapacear ou bater em alguém?

    − Mais ou menos. Ah, quer saber? – o pai alterou-se – nesta corrida maluca todos fizeram coisas graves, pilotos, copilotos, os carros que assistem da almofada, comentaristas. Alguns cometeram erros gravíssimos, como atropelar os carros feios que assistem. E segue tudo a mesma m…

    − Essa corrida não tem muito sentido – disse o garoto após recolocar os carros na linha de partida. − Mas tem alguém que organiza, né? Que decide se é justo ou não gostar do piloto. Um árbitro, como no futebol.

    − Rodrigo, me dá uma mão aqui – a mãe gritou do quarto – é urgente.

    O pai correu para ver o que se passava. Chegou no quarto e ouviu os resmungos da mãe: “hhhhmmm, Jesus, nunca vi tanta sujeira”. Abanou o nariz para afastar o cheiro que recendeu no quarto, foi ao banheiro buscar uma bacia com água e sabonete. Só os lenços umedecidos não dariam conta. Após alguns minutos,  voltou à sala com as fraldas sujas na mão:

    − Onde eu estava mesmo?

     

  • Fim de feira

    por Irka Barrios

    Gemma não apareceu na quarta-feira após a Páscoa e achamos que decidira estender a visita na casa do filho. Na semana seguinte também não apareceu. Ela não ficaria tanto tempo em São Paulo, reclamava que a nora não a queria por lá, então matutamos sobre outros motivos para a ausência. Poderia ser um resfriado, nesta época de mudanças de temperatura, ou a temida gripe A. Judite protestou, Gemma vivia se exibindo com seus hábitos de alimentação saudável e cuidados físicos. Contava que fazia hidroginástica duas vezes por semana, massagem estética, acupuntura e shiatsu com um senhorzinho japonês que curava as piores dores com a pressão do polegar. Uma mulher de hábitos tão saudáveis não ficaria doente por duas semanas.

    Na terceira falta sem notícia, começamos a nos preocupar de verdade. Sentadas em nossas cadeiras, observamos a dela vazia, um tanto contrariadas. Passamos a teorizar se Gemma possuía algum segredo, uma doença que desconhecíamos. Artrite, quem sabe? Cálculo renal? Sabíamos tão pouco dela quanto de nós mesmas. Nunca fomos confidentes, nem o número do telefone havíamos trocado. Ela teria e-mail? Whatsapp? Nervosa com nossa passividade, Judite se prontificou:

    − Sei qual é o prédio dela. Vou bater lá.

    Saiu com seu balançado de ancas volumosas, os quadris dançando para lá e para cá, e prometeu voltar em meia hora. Não podíamos esperar, Jandira e Ivete tinham compromisso, mas a curiosidade foi tanta que pedimos outro café e concordamos, todas, em atrasar os afazeres do resto do dia.

    Judite voltou no tempo previsto, cabisbaixa. Não conseguira contato, Gemma não quis recebê-la. Mesmo assim, especulou o porteiro o quanto pôde. O homem disse que tudo seguia normal, Gemma ainda saía para suas atividades, embora ele tenha notado um ar mais fechado na senhora tão alegre. Fora isso não sabia de mais nada, não era empregado bisbilhoteiro do tipo que fica cuidando a vida dos moradores. Desanimadas com a falta de consideração, bebemos os últimos goles de café e partimos.

    Na quarta-feira seguinte a ausência foi assunto inicial, apenas. Mantivemos a cadeira de Gemma vazia e comentamos a queda de qualidade da banca do Beto. O moço, sempre tão simpático, oferecia as melhores frutas e verduras da feira. Contava que produzia tudo em seu sítio, para os lados de Águas Claras. De um mês para cá, entretanto, algo aconteceu. As frutas perderam o viço e as verduras murchavam no dia seguinte após a compra. Judite mencionou a amizade que havia entre Gemma e Beto:

    − Ela sempre trazia uma fatia de bolo ou um biscoito caseiro para ele.

    − Da última vez que sentamos as cinco – Ivete lembrou – Gemma não ficou muito. Tinha voltado da banca do Beto com as mãos vazias e uma cara estranha.

    − Lembram que ela dizia que Beto dava os ares de um namorado da juventude? – disse Jandira.

    O assunto abriu sorrisos e nossos livros de memórias. Nostálgicas, bebemos o café saboreando os amores contidos do passado. Acertamos a conta, pegamos as sacolas de produtos comprados no concorrente e seguimos nossas vidas. Nenhuma cogitou ir até Beto perguntar se ele sabia de algo.

    Na mesma quarta-feira em que a dona do café solicitou a cadeira que Gemma ocupava, notamos a falta do Beto. Não caminhávamos mais até sua banca, desistimos de comprar lá. Ouvimos falatórios, a maior parte dos produtos dele acabava ficando para a xepa de tão ruins.

    E assim seguiram-se diversas semanas sem maiores explicações. A ausência de Gemma tornou-se normal, não falávamos mais nela e a nossa mesa do café agora tinha quatro, não mais cinco cadeiras.

    Uma tarde, no supermercado do bairro, a encontrei. Vinha altiva, o carrinho de verduras frescas conduzido pelo braço cheio de pulseiras tilintantes, como na época em que flertava com Beto. Não me contive e perguntei o que havia acontecido para ela tomar uma decisão tão estranha.

    − E o Beto? – A pergunta de Gemma se interpôs ao questionário que eu começava a fazer.

    − Fechou a banca. Logo depois de você…

    Gemma me interrompeu mais uma vez, com certa tristeza no olhar.

    − Pois é – limitou-se a dizer.

  • Clayton, meu pai — Arthur Telló

    Naquele verão, meu pai ligou pra minha mãe perguntando se a gente não podia largar tudo e ir morar com ele na praia. Ele tinha conseguido uma casa com um homem chamado Sérgio, um ex-alcóolatra que meu pai conheceu no A.A.. Minha mãe não pareceu convencida. Não sei, Clayton, ela disse. Não acho uma boa ideia. Eu olhava para minha mãe na esperança de entender o que ela e meu pai diziam. Ele disse, Manda um beijo para a Bárbara. Eu sei disso porque minha mãe me olhou e disse, Teu pai te manda um beijo. Eu fiquei em silêncio, encolhida, com uma sensação ruim no estômago e na garganta. Minha mãe disse, Ela te manda outro, e desligou o telefone.

    Cinco dias depois meu pai ligou de novo. Eu atendi. O que tu acha de passar as férias com a mamãe e o papai?, ele perguntou com uma voz simpática. Eu não respondi. A gente vai poder começar de novo, Bárbara, ele disse quando apareceu minha mãe e tomou o telefone da minha mão. Pronto, ela disse séria. Sim, eu pensei. Minha mãe tinha me perguntado na noite anterior o que eu achava de a gente voltar a morar com meu pai. Eu disse que não sabia. Minha mãe disse que não faria nada que eu não quisesse. Se tu acha uma má ideia, não vamos, ela disse. Eu me encolhi na cama e disse baixinho, com muito medo de dizer algo errado e ofender a minha mãe, Podemos tentar, não? Ela me olhou e não disse nada. Seu rosto endureceu, e isso me incomodou. Pelo telefone minha mãe disse que se meu pai prometesse se comportar, ela e eu iríamos até ele. Promete?, ela perguntou. Não sei o que ele disse, mas em seguida a voz da minha mãe ficou embargada e demorou para sair. Tá bem, ela disse.

    Durante o verão meus pais me levavam para a praia de manhã, a gente fazia castelos de areia e jogava frescobol. Eu usava um boné e uma camiseta da Sundown, brinde do protetor solar. Tudo cheirava à maresia e a protetor e em toda parte havia areia da praia. Minha mãe precisava varrer a casa duas vezes por dia, mas ninguém se importava com isso. Em casa a gente tomava suco, água, refri e meus pais bebiam muito café. Mal meu pai via minha mãe na sala, ele perguntava se ela queria um pouco. Sim, ela dizia, e pouco tempo depois aparecia uma xícara em suas mãos. Às terças e quintas chegava o Sérgio, um sujeito gordo, de pernas curtas, em um Jipe vermelho e levava meu pai para suas reuniões do A.A. Meu pai dizia que os dois iam para um lugar onde cuidavam para ele não beber mais. Minha mãe ficava feliz e me abraçava forte quando meu pai entrava no carro de Sérgio e ia embora com ele. Acho que fizemos uma boa escolha, ela disse uma vez, não acha? Eu disse que achava. Tu tá feliz?, ela perguntou. Sim, eu estou, eu respondi, e minha mãe me pegou nos braços e me levou para tomar sorvete de chocolate na esquina de casa. Mas, em geral a gente ficava na sala vendo TV. Só uma noite ela me levou para tomar sorvete. Eu tinha medo, mas depois de um tempo, me peguei pensando no verão. Não queria que ele acabasse. Minha mãe estava sempre contente, de bom humor, e sorrindo muito. Suas olheiras tinham sumido e ela usava maiôs e vestidos de flores que mostravam suas pernas compridas, suas formas suaves. No seu dedo voltou a brilhar a aliança. No do meu pai não, porque uma vez em que ele chegou em casa bêbado e cheirando mal, ele e minha mãe brigaram, e ele jogou a aliança dele na rua. Não preciso dessa merda, ele disse. Mas isso parecia há muito tempo. Como ela é bonita, eu pensava, ao sair do mar e ver minha mãe debaixo do guarda-sol. Meu pai olhava para ela e sorria. Eu olhava para os dois e sorria também. Meus cabelos castanho-claros eram iguais aos dela, assim como minha boca fina, enquanto meus olhos escuros eram do meu pai. Filha, olha o que eu trouxe para ti, disse meu pai depois de uma das suas reuniões do A.A.. Ele me olhava como se fosse fazer uma brincadeira enorme, impossível de imaginar. Bem diferente dos olhos vermelhos do passado, eu pensei. Seu rosto não estava inchado, mas magro, com rugas profundas em torno ao nariz de boxeador. Numa noite, ele brigou com um desconhecido no bar e voltou para casa com o nariz daquele jeito. Eu nem lembrava mais como era o nariz dele antes disso. Ele disse para eu fechar os olhos. Eu fechei e quando ele disse, Abre, eu vi um pequeno chapéu de palha na minha frente. Pus o chapéu e perguntei pra minha mãe, Estou bonita? Estou bonita, mãe? Ela disse que eu estava linda, aproximou-se do meu pai e os dois se beijaram.

    Acontece que o Sérgio deixava a gente ficar na casa dele por quase nada. Minha mãe não precisava trabalhar, e meu pai de vez em quando podava o jardim de algum vizinho. Fora isso, todo o tempo dele era para nós. Um dia meu pai estava trabalhando no jardim, quando chegou Sérgio no seu Jipe. Ele parou em frente à porta da garagem, saiu de lá, ajeitou a barriga enorme e pôs a mão no ombro do meu pai. Minha mãe e eu, a gente estava lavando louça e se surpreendeu com aquilo. Era sábado. Impossível ouvir qualquer coisa, mas eu percebi como o rosto do meu pai foi se fechando, e o nariz o deixava com uma expressão agressiva, como um cachorro com medo. Primeiro meu pai ficou pálido e depois duro. Ele olhava para o chão e não lembro de ele ter olhado para o rosto de Sérgio. Não sei por que, mas isso me machucou. Alguma coisa estava errada. Minha mãe foi até a porta e quando eu perguntei o que estava acontecendo, ela me mandou ficar quieta. Então o Sérgio cumprimentou meu pai, deu um tapinha no seu ombro, entrou no carro e foi embora. Meu pai entrou em casa e sentou no sofá, sem dizer nada.

    Clayton, o que foi?, quis saber minha mãe.

    Meu pai não olhou para ela, mas para mim. Não disse nada.

    É verdade?, minha mãe perguntou.

    O rosto do meu pai estava diferente. Ao lado dos olhos escuros, pequenas rugas apareceram. Ele parecia mais velho do que era.

    Clayton, me responde.

    Ah, cala a boca, meu pai disse, se levantando do sofá e caminhando até a cozinha. Eu e minha mãe nos olhamos e ouvimos ele servir o café.

    Quando ele voltou para a sala, minha mãe pediu que ele explicasse o que aconteceu.

    O filho da puta do Sérgio quer a casa de volta, meu pai disse. Ele sentou de novo no sofá e disse que a filha do Sérgio, a Amanda, uma mulher tão gorda como ele, que meu pai antes chamava de Baranga nos seus tempos de bebedeira, perdeu o marido. Meu pai disse, O cara viu o inferno em que tava metido, pegou o carro e deu no pé. Eu não culpo o cara, mas agora o Sérgio nos f…(e meu pai olhou para mim)..errou.

    Calma, minha mãe disse. Não vamos nos estressar.

    Ela quer que eu não me estresse, meu pai disse, ríspido. Ele já não olhava para mim nem para minha mãe. Fiquei tensa, os nervos à flor da pele.

    Nós vamos dar um jeito, minha mãe disse, sem convicção.

    Como?, ele perguntou. A gente tá fodido.

    Minha mãe disse para ele não falar assim, que eu podia ouvir.

    Meu pai ficou calado, tomou um gole de café e não falou nada.

    A mãe foi até a cozinha e perguntou se eu queria suco. Ela abriu a geladeira, a geladeira de Sérgio, eu pensei, branca, velha e encardida, e tirou de lá uma jarra de plástico transparente cheia de suco de laranja. A jarra era do Sérgio, assim como o copo de requeijão com que minha mãe me serviu, a xícara que depois ela encheu de café, o sofá onde meu pai estava sentado, e as janelas por onde eu olhava. Eu começava a compreender. Pelas janelas entrava um vento que trazia o cheiro do mar e, por trás delas, eu via um céu azul coberto de nuvens escuras, com cor de sujeira. Vai chover, eu pensei.

    Sentada ao lado do meu pai, minha mãe disse com uma voz doce que aquele tinha sido um bom verão. Ela disse, Fico feliz de tu ter encontrado essa casa e nos dado esse tempo. Ela disse que a gente pareceu uma família.

    As palavras da minha mãe, todas no passado, me deram mal-estar. Olhando pela janela e escutando suas vozes, era como se meus pais falassem de algo que tinha acontecido há muito tempo. Algo que tinha acabado. Eu desejei que aquela tensão terminasse de vez. Ali dentro, eu me sentia mal e sufocada.

    Meu pai então riu e disse, Aquele filho da puta nos fodeu direitinho. Ele sorriu para minha mãe e fechou os olhos. Por trás do nariz torto e do rosto magro, ele estava pensando. Minha mãe disse para ele pensar com calma e não fazer nenhuma bobagem. A gente ainda pode consertar tudo, ela disse.

    Como?, meu pai perguntou. Essa casa foi boa pra nós até agora, ele disse e depois continuou num tom mais baixo para eu não ouvir, Mas onde vamos encontrar outra? E como vamos pagar? Melhor esquecer isso e ir embora. Os dois ficaram em silêncio. Então meu pai disse, Obrigado por ter vindo, eu não vou esquecer.

    Minha mãe disse que estava feliz por ter vindo. Foi bom ter tido esse tempo pra gente, ela disse. E ouvir isso me machucou. Eles esqueceram de mim, eu pensei. Com o rabo do olho, eu podia ver como os dois estavam lado a lado no sofá, olhando para o chão.

    Por fim meu pai levantou, deu uma beliscada na minha bochecha, fechou as janelas e cerrou as cortinas, cortando o céu, as nuvens e o cheiro de mar. Ele me perguntou se eu não gostaria de dar mais uma volta na praia.

    Olhei para minha mãe, e ela não disse nada. Ela continuava a olhar para o chão. Nem ela nem eu sabíamos o que iria acontecer depois. Meu pai sabia. Somente ele sabia. Ele me pegou pela mão, eu senti sua palma suada, e, quando a gente quase saía da casa, minha mãe disse, Vocês podem ir. Eu vou pegar o resto de comida na geladeira e fazer o jantar. É pouca coisa.