Category Archives

    clássicos da minha estante

  • All
  • Clássicos da minha estante

    Quem lê bem, escreve bem. Hoje a autora Fátima Parodia nos conta sobre os livros clássicos de sua estante.

     

    “Tive a sorte de crescer num ambiente de muita leitura, meus pais eram leitores vorazes, e como consequência, meus irmãos e eu também líamos muito. Houve uma época que meu pai era vendedor de livros, principalmente de enciclopédias e dicionários. Nós tínhamos uma brincadeira: nos sabatinávamos numa espécie de competição, a gente pegava o dicionário, abria numa página e escolhia uma palavra para que o outro dissesse o significado.

    Meu primeiro clássico era o livro favorito da minha mãe:

     

    O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas

    Creio que eu tinha cerca de 12 anos quando li este livro, foi uma chicotada nos conceitos de justiça que eu começava a formar. Vi Edmund Dantès, após ser traído e encarcerado, perder a inocência da forma mais dolorida possível, e se tornar um sujeito por vezes cruel, obcecado por vingança. Era muito cedo pra que eu entendesse todos os matizes das relações humanas, mas uma lição acabei aprendendo, que o sentimento de vingança nos nivela por baixo.

     O morro dos ventos uivantes, de Emily Brontë

    Este livro também veio por intermédio da minha mãe. Outro tratado sobre vingança, o que faz parecer que mamãe era uma pessoa vingativa, mas não, ela gostava de mocinhos sofredores e suas reviravoltas. Heathcliff e Catherine me ensinaram que os fins não justificam os meios.

    A casa da paixão, de Nélida Piñon

    O texto metafórico desse romance me fez querer ser Nélida Piñon. Não consegui, é claro, mas posso dizer que Nélida Piñon atravessou a vida comigo, estará sempre entre meus afetos. Quando li A casa da paixão eu estava entrando na fase adulta, fui sacudida pelo seu texto cheio de silêncios, de imagens, de poesia.

    Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Márquez

    Gabo me deixou em surto com seu realismo mágico. A solidão como estado de espírito dos seus personagens me representou muito bem. Na época, eu, uma jovenzinha meio estranha, tímida, arisca, achei que era uma Buendía (sem o rabo de porco). Já reli tantas vezes que acabei decorando alguns trechos. Gabo me mostrou um outro jeito de ver e fazer literatura. Pra mim, é uma espécie de Bíblia.

    Barragem contra o Pacífico, de Marguerite Duras

    É um livro icônico pra mim. Comprei-o em um sebo bem numa época em que estava tentando erguer minhas barragens contra o aguaceiro que ameaçava levar tudo por diante. Este livro me ensinou a resistir, ensinou que a persistência às vezes pode ser burra, mas também pode ser a viga mestra que nos mantém em pé.

    Bagagem, de Adélia Prado

    Eu era bem jovem quando uma pessoa querida me presenteou com este livro, então, tomei contato com a poesia de Adélia Prado. Foi um arrebatamento. Essa moça Adélia me traduziu, me refletiu, falou de coisas que vão correr em minhas veias para todo o sempre, amém.

    A elegância do ouriço, de Muriel Barbery

    Por obra do acaso descobri Muriel Barbery, não faz muito tempo. O mérito foi ter descoberto sozinha uma autora que nos vira do avesso ao escrever sobre universos internos. Já reli com a mesma emoção da primeira vez, e de novo, fiquei toda pra fora, sem ar, com uma vontade danada de me acabar no choro. Não de tristeza, mas de encantamento. Águas de certeza: a literatura enleva.

    A lua vem da Ásia, de Campos de Carvalho

    Um quase desconhecido autor brasileiro, o que considero uma injustiça com o seu talento. Quando li este livro comecei a desconfiar da minha própria lucidez. Na minha opinião, para a literatura brasileira este é um livro emblemático. Na época do seu lançamento, Campos de Carvalho foi duramente criticado por outros escritores, levou trinta anos para ser “descoberto”. O que me faz pensar que escrever é mesmo para os fortes.

    O tempo e o vento, de Érico Veríssimo

    Digamos que beira a redundância um gaúcho dizer que leu o Tempo e o Vento. É leitura obrigatória nas escolas (pelo menos antigamente), além de retratar os costumes gaúchos (alguns nem existem mais), fala também das nossas guerras, não só as políticas, mas daquelas travadas dentro de cada um.

    Cães da província, de Luiz Antônio de Assis Brasil

    Quem resiste à loucura de Qorpo Santo?  Eu não. Já estava na faculdade quando um colega me emprestou este livro. Não fossem as conversas de Qorpo Santo com pessoas inexistentes, eu diria que ele não era um louco, mas alguém com um sério compromisso consigo mesmo. Talvez por isto, eu também banquei a doida, e nunca devolvi o livro, tá amareladinho pelo tempo, seboso, e de vez em quando, fala comigo.

    Bônus:  Quiçá, de Luisa Geisler

    Descobri esta garota fantástica porque acompanho o Prêmio SESC de literatura e sempre que possível compro os livros dos vencedores. Gosto da literatura que os jovens estão fazendo. É inspiradora.  Arthur e Clarissa são personagens afundados nas suas próprias vidas, solitários na multidão, por assim dizer, acabam se escorando um no outro como alternativa para emergir. Isto, é claro, me fez refletir sobre quantas vidas de literatura andam por aí e a gente não vê. Mas como disse Nietzsche: temos a arte para que a verdade não nos destrua.

     

    Fátima Parodia é autora do livro é tudo noite (contos – Ed. Bestiário – 2016).

     

  • Clássicos da minha estante

    Pedimos ao escritor Tiago Germano uma lista de obras que valeram como clássicos na sua formação como leitor. O resultado foi o texto primoroso que segue:

     

    1. Éramos Seis, de Maria José Dupré

    Comecei a ler ficção aos doze anos. Minha mãe fazia o curso de Letras à noite e me deixava em casa cuidando dos meus dois irmãos mais novos. Não tínhamos o hábito da leitura e geralmente passávamos o tempo livre brigando pelo controle remoto – eles querendo ver os desenhos da TV Cultura e eu uma novela do SBT que, talvez por tratar de uma família com irmãos mais ou menos da nossa idade, tinha me chamado atenção: “Éramos Seis”. Um dia, minha mãe me disse que aquela novela tinha sido baseada num livro. O romance da coleção vagalume chegou às minhas mãos na mesma noite, emprestado da biblioteca da faculdade. Paramos de brigar pelo controle remoto porque agora, sempre que eu perdia um capítulo, eu podia ver o que acontecia nas páginas do livro. Quando a novela terminou e perdi o interesse pela leitura, minha mãe achou uma outra maneira de me convencer a ler: a cada livro da biblioteca que eu terminasse, ela me traria um salgadinho específico da cantina da faculdade. Achei o trato justo. Passei a devorar os livros para devorar os salgadinhos. Li quase toda a biblioteca de ficção do curso de Letras daquela faculdade e me tornei um adolescente bastante rechonchudo e ensimesmado. Apesar disso, sempre que me lembro dessa época, sinto uma ternura especial pela minha mãe e pelo livro da Maria José Dupré, meu primeiro e quiçá mais importante clássico.

     

    1. A Morte do Super-Homem, de Dan Jurgens

     

    Estaria sendo injusto se não incluísse os quadrinhos entre as minhas experiências de leitura: foram eles que primeiro me atraíram, muito antes dos livros. Uma das minhas grandes frustrações na infância, por exemplo, foi nunca ter podido assinar os gibis da Turma da Mônica porque o meu pai, guiado por um senso pedagógico um tanto questionável, achava que personagens como o Cascão, que não tomava banho, não eram uma influência positiva para uma criança. Quando consegui juntar meu próprio dinheiro, fui a uma banca com o intuito de comprar um almanaque do Cascão pra diminuir o trauma, mas me deparei com uma revistinha de capa preta com o símbolo do Super-Homem se desmanchando em sangue. Voltei pra casa com ela e a partir de então acompanhei todo esse arco do personagem da DC: a morte, o velório, a ressurreição, a revanche do herói contra Apocalipse. Décadas depois, voltei a ler quadrinhos pelos romances gráficos de Eisner e Spiegelman, sempre com o mesmo deslumbre pueril que tive nessa fase.

     

     

    1. Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas

     

    Li no final da adolescência, em viagens semanais que fazia me acotovelando com outros estudantes, na traseira de bandinhas lotadas que nos levavam de Campina Grande, cidade onde eu estudava, para várias outras cidades do interior da Paraíba. Cada casa de taipa na beira daquela estrada já abrigou um castelo medieval; cada cavalo galopando naquela terra já foi montado por um cavaleiro de capa e espada que enfrentaria, com coragem e bravura, os desmandos de um cardeal. Foi minha primeira leitura de fôlego, feita pelo simples prazer de ler.

     

    1. Fome, de Knut Hansum

     

    Pela filiação do autor ao nazismo, é bem possível que poucas pessoas tenham tido a oportunidade de fazer a leitura que eu fiz de Knut Hamsun quando era apenas um moleque, e achava que não tinha tempo a perder com o texto introdutório de “Fome” – que eu pensava que se lesse “F.Ome”, por causa da mancha de tinta na capa daquela edição. Tratava-se da esquecida tradução feita pelo Drummond para o Círculo do Livro, um texto que me pegou de jeito com um tipo de literatura à qual eu não estava acostumado, com personagens menos superficiais, repletos de conflitos internos. Só muito depois fui notar, um tanto constrangido, os narizes torcerem quando citava Hamsun como um dos autores essenciais para minha formação.

     

    1. Dois Irmãos, de Milton Hatoum

     

    Numa lista de leituras recomendadas para o vestibular de medicina que eu pretendia fazer, descobri que havia uma coisa chamada literatura brasileira contemporânea. Eu me deitei no piso frio de azulejos do pergolato da minha tia com aquele livro. Era hora da sesta. Só algumas horas depois eu consegui tirar os olhos daquilo e me sentir existindo debaixo do sol que ardia naquela tarde. A luz ofuscava minha visão mas quando eu fechava os olhos o desenho que eu via não era do céu, mas de um lugar que subitamente me parecia muito mais real que o lugar onde até então eu vivia. Desisti do vestibular de medicina e escolhi um outro caminho que pudesse me levar constantemente àquele lugar, o único em que acho possivel viver agora, o único em que, como diria Javier Marías, um romancista pode achar suportável viver em qualquer época: a ficção.

     

    1. Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez

     

    O clichê inevitável, num período em que a gente é aquele clichê ambulante do jovem escritor se debatendo na angústia da influência de um mestre. No meu caso, Gabo, uma influência tão castradora e acachapante que sua literatura virou tema de um mestrado que nunca consegui concluir. Tive que me afastar de sua obra até muito recentemente, perto de sua morte, quando me senti preparado para abrir de novo algum livro seu sem sentir que estava indo até lá para aprender uma linguagem que, invariavelmente, eu ia tentar imitar nas crônicas que eu escrevia. Durante esse hiato, Gabo puxou outras referências importantes, como Rulfo, que me ajudou a parar de voar com as borboletas amarelas e colocar os pés um pouco mais no chão.

     

    1. Agonia na Tumba, de Tarcísio Pereira

     

    O espanto que tive quando li “Dois Irmãos” foi o mesmo que tive quando li esse romance curto do paraibano Tarcísio Pereira. Então havia literatura sendo feita ali, muito perto de mim. Tarcísio me passou o seu livro no extinto Bar dos Artistas do Teatro Santa Rosa. Eu li o romance em uma madrugada, e perambulei no outro dia feito um morto-vivo pelos corredores do Decom, em João Pessoa. Foi a literatura de Tarcísio que me fez querer conhecer outros escritores da Paraíba. Depois dele veio Geraldo Maciel, cujo “Pequenas Criaturas” me lembrava os contos do Rulfo, e me mostrava que você não precisa de uma Macondo quando nasceu no Seridó, foi criado no Brejo e está começando a conhecer o mundo com toda essa herança.

     

    1. O Passado, de Alan Pauls

     

    Peguei  “O Passado” depois que li uma entrevista de Alan Pauls em que ele dizia que “não há experiência amorosa que não envolva a dimensão de um pesadelo”. Eu usei essa frase como uma das epígrafes do meu livro “A Mulher Faminta” (que sai ano que vem pela editora Moinhos) porque a própria ideia do romance foi roubada de Pauls. Explico. Na Flip de 2007, eu estava na plateia quando ouvi ele dizer que o título inicial de “O Passado” era “A Mulher Fantasma”, um título que era péssimo mas que traduzia perfeitamente o que representava a personagem Sofía: uma assombração que vez por outra retornava à vida de Rímini para atormentá-lo. Quando comecei a escrever o meu romance percebi que meu protagonista também era vítima de um espectro desses. Cheguei a pensar que meu livro poderia até mesmo se chamar “A Mulher Fantasma”, mas como o título era mesmo horrível achei por bem substituir a metáfora da fantasmagoria pela da fome, que agora me faz pensar em Hamsun, mas na época eu associava a esse apetite que a experiência amorosa parece ter de fagocitar as coisas, de devorar a própria vida, uma experiência muito maior e mais potente que o amor.

     

    1. Mãos de Cavalo, de Daniel Galera

     

    Aqui, aquele mesmo espanto de “Dois Irmãos” e “Agonia na Tumba”, com um pequeno adicional: é muito diferente quando quem está escrevendo é alguém mais ou menos da mesma geração que você – não um avô, não um tio, mas um irmão de época. É um livro do Galera que, mais que ler, estudei, tentando aprender um pouco com sua estrutura temporal paralela, que até hoje acho muito bem realizada. É talvez o livro dele de que mais gosto e é um autor que acompanho, entre muitos escritores e escritoras de carreira mais recente que leio.

     

    1. Bonsai, de Alejandro Zambra

     

    Porque quando você passa a vida imerso em narrativas que te acompanham por dias, semanas a fio, até serem esquecidas ou raramente lembradas, você passa a nutrir um carinho especial por aquelas que te acompanham por algumas poucas horas e conseguem se tornar parte permanente de você. Em algumas dezenas de páginas, Zambra conta uma história de amor pelo amor e de amor pelas histórias, um livro que é uma aula de metanarração, com suas camadas perfeitamente podadas e sua forma sendo a metáfora perfeita desse bonsai: uma árvore que, em miniatura, tem tudo o que uma grande árvore tem.

     

    Tiago Germano é escritor e jornalista. Seu livro de crônicas “Demônios Domésticos” sai neste próximo semestre pela editora Le Chien.