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    a boa prosa

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  • Making off conversa com a multitalentosa Kathy Krauser

    Passei a tarde de domingo conversando com Kathy Krauser.  Falamos sobre o super sucesso do musical “A very Potter musical Brasil”, a experiência da autora como cantora, bailarina, dubladora e (é claro) sobre literatura.

    Um pouquinho da nossa tarde super divertida, aqui na boa prosa

    “veja bem, eu acho muito precipitado afirmar que Capitu traiu Bentinho”

     Kathy Krauser contou sobre sua primeira experiência como autora, aos 5 anos. Sim, aos 5 anos, a então garotinha escreveu, ilustrou, imprimiu e vendeu “Uma aventura no bosque”, sucesso total na escola e entre tios e primos da família.

      Em junho passado, a autora publicou seu segundo livro “7 viram 37”, pela Editora Bestiário.

      Voltada para o público infantil e adolescente, a obra é composta de diversos contos que se conectam entre si. Os personagens são amigos, namorados, ex namorados, pais, mães, o que confere uma unidade muito bacana. Na última página, Kathy teve o cuidado de incluir um esquema onde mostra as relações entre todos os personagens do livro. Não há como se perder.

    Kathy e seus dois filhinhos.

     

    Kathy Krauser também canta (e muito bem, uh la lááááá´). Infelizmente não teve um ao vivo, mas temos um vídeo só para mostrar um pouquinho da voz incrível da guria:

     

    Uma declaração de amor conjunta à literatura, essa paixão que nos une:

     

     

    Logo mais, a entrevista completa aqui e no canal da boa prosa.

    beijinhos

     

     

  • Nina Müller


    Conversamos com Nina Müller, uma autora que se destaca na plataforma de autopublicação da Amazon no gênero de eróticos. Nina possui um grupo vasto de leitoras e fãs que a acompanham pelas redes sociais e agora lançará seu livro pela Editora Planeta.

     

    IB: Como foi o caminho que te levou até a literatura?

    NM: Eu sempre gostei da literatura. Desde a infância que escrevia histórias. Comecei escrevendo histórias em quadrinhos, depois na adolescência, escrevia pequenos contos. Quando fiz faculdade de Letras, comecei a esboçar enredos mais longos.

     

    IB: Quais os livros que tu considera definitivos na tua formação como leitora?

    NM: Os clássicos. Li muito Machado, José de Alencar, Graciliano Ramos, Clarice Lispector, Drummond. Embora hoje a literatura contemporânea em nada se assemelha com a clássica.

     

    IB: Como surgiu a ideia da autopublicação? Quais as plataformas que você usa e quais as mais rentáveis para um autor independente?

    NM: Eu conversei com alguns autores que já publicavam e que gostavam do retorno. Então decidi experimentar. Eu publico somente pela Amazon. Não conheço as outras plataformas pagas.

     

    IB: Você frequenta a lista dos e-books mais lidos da revista Veja. (Parabéns!) Como é o retorno e a interação com teus seguidores?

    NM: Obrigada! Meus leitores me dão apoio e incentivo, trocam ideias, sugerem coisas novas, até experiências de vida. Eles são o meu pilar de sustentação. Principalmente depois da morte da minha mãe, no ano passado.

     

    IB: Como você vê os fenômenos que surgem na literatura de gêneros no Brasil?  E como é a tua interação com os autores? De todos os gêneros, qual o teu favorito?

    NM: Eu acho que tem espaço para todo mundo, todos os gêneros. Tenho amizade com autores que escrevem os mais variados estilos. A gente troca ideias. É muito legal. O meu gênero favorito continua sendo o romance.

     

    IB: Quais teus planos? Tens algum livro de contos ou romance em andamento ou pronto para publicar?

    NM: Sairá pela editora Planeta de Livros do Brasil o terceiro livro da série Sentença, Prazer em julgamento. Ele está na grade da editora para o mês de agosto. A Planeta adquiriu os direitos autorais dos últimos dois livros. E o primeiro estará disponível na Bienal do Rio de Janeiro.

    IB: Qual a crítica/elogio que você ainda não recebeu, mas te deixaria muito feliz?

    NM: Não seria bem uma crítica ou um elogio, mas eu acho que o sonho de todo o autor é ver seu trabalho reconhecido no país inteiro e, porque não dizer, também em outros países.

     

    E-books mais vendidos da autora:

    Amor em julgamento (Série Sentença)

    Desejo em julgamento (Série Sentença)

    Ardente cativeiro da fênix (Duologia Fênix)

    Sublime renascer da fênix (Duologia Fênix)

     

    Links:

    https://www.amazon.com.br/Ardente-Cativeiro-F%C3%AAnix-DUOLOGIA-Edi%C3%A7%C3%A3o-ebook/dp/B00RGVPKQA/ref=sr_1_1?s=digital-text&ie=UTF8&qid=1501540797&sr=1-1&keywords=nina+m%C3%BCller

    https://www.amazon.com.br/Sublime-Renascer-F%C3%AAnix-DUOLOGIA-F%C3%8ANIX-ebook/dp/B0156PABH0/ref=sr_1_14?s=digital-text&ie=UTF8&qid=1501540853&sr=1-14&keywords=nina+m%C3%BCller

    https://www.amazon.com.br/Box-Duologia-F%C3%AAnix-Nina-M%C3%BCller-ebook/dp/B0182EVT46/ref=sr_1_13?s=digital-text&ie=UTF8&qid=1501540853&sr=1-13&keywords=nina+m%C3%BCller

    https://www.amazon.com.br/Amor-Julgamento-S%C3%A9rie-Senten%C3%A7a-Livro-ebook/dp/B00W43VPDW/ref=sr_1_2?s=digital-text&ie=UTF8&qid=1501540853&sr=1-2&keywords=nina+m%C3%BCller

    https://www.amazon.com.br/Desejo-julgamento-S%C3%A9rie-Senten%C3%A7a-Livro-ebook/dp/B01D46AKOW/ref=sr_1_5?s=digital-text&ie=UTF8&qid=1501540853&sr=1-5&keywords=nina+m%C3%BCller

    E outros:

    https://www.amazon.com.br/L%C3%A1grimas-do-cora%C3%A7%C3%A3o-Nina-M%C3%BCller-ebook/dp/B0711CMVZ1/ref=sr_1_3?s=digital-text&ie=UTF8&qid=1501540853&sr=1-3&keywords=nina+m%C3%BCller

    https://www.amazon.com.br/Sedutora-entre-prazer-Nina-M%C3%BCller-ebook/dp/B01H60ZULK/ref=sr_1_10?s=digital-text&ie=UTF8&qid=1501540853&sr=1-10&keywords=nina+m%C3%BCller

    E para quem curte contos eróticos:

    https://www.amazon.com.br/Box-contos-er%C3%B3ticos-Nina-M%C3%BCller-ebook/dp/B01MZ4EXY9/ref=sr_1_15?s=digital-text&ie=UTF8&qid=1501540853&sr=1-15&keywords=nina+m%C3%BCller

     

     

  • Flip 2017

    por Irka Barrios

     Breves relatos e recordações de minha primeira passagem pela Flip.

    O projeto de minha próxima novela (em andamento) foi selecionado para um evento chamado Pitching: vendendo sua ideia, organizado pela Amazon e Casa Santa Rita de Cássia. No grupo de 13 autores, muita gente talentosa, como Bruno Ribeiro (Brasil em Prosa, 2015 /  finalista Prêmio SESC, 2016 / finalista Prêmio Kindle, 2016), Vanessa Maranha (Prêmio OffFlip, 2012 / Prêmio Barueri e UFES, 2014 / Finalista Prêmio São Paulo de Literatura 2015) e Jeanethe Fontes Suleiman (prêmio Cecília Meirelles, 2015).

     

    É claro que a boa prosa estava lá!

    Olha ele aí, Bruno Ribeiro, meu colega de pódio do Brasil em Prosa (2015)

    Os autores aguardando a vez de defender suas histórias e personagens para um grupo bem bacana de editores. Na foto Vanessa Maranha, Vinícius Gomes Melo, M. A. Costa, David Bayer, Bruno Ribeiro e eu.

    Defendi a Lauren, personagem por quem estou apaixonada e conviverá comigo durante o próximo ano. A garota de treze anos vive numa cidade do interior do RS e é assombrada por visões após presenciar uma cena de sexo entre a mãe e o pastor de sua igreja.

    O projeto faz parte de meu mestrado em Escrita Criativa da PUC-RS.

    Bruno Ribeiro defendeu Glitter, um romance que já foi finalista de dois concursos.

     A Casa Santa Rita de Cássia foi um ambiente agradável para autores independentes. Da experiência, resultaram boas trocas e amizades com escritores que estão trabalhando duro pela literatura contemporânea.

    Quanto ao resultado, nenhuma surpresa: é impossível avaliar uma obra através de uma apresentação oral de três minutos.

    Através de uma visita relâmpago a Paraty, pude notar a diversidade das mesas e o clima interessante do lugar que, por alguns dias, mergulha fundo na literatura. Que venham novas Flips!

     

  • Águas do meu batismo

    por Ernani Catroli

    As cores da manhã e o ruído crescente das ondas na areia. Baixa temporada agora. Seguia pela aleia de cascalho que levava ao casarão de dois andares. Pensão do Farol. Ao abrir a porta, Dona Jovita, o semblante rijo.  Mais magra. Cabelos ralos.

    Mas é Milena quem emerge do ambiente. Muitas vezes. Milhares de vezes.

    Toda a nossa louca juventude e aquela gravidez atropelando os dias.

    Faremos, então, o combinado.

    ***

    O lado do quarto onde permaneço mudo e a voz imperativa de dona Jovita. Milena deitada na cama de solteiro. Os olhos aumentados.

    Sobre o criado mudo, a infusão de ervas para ser ingerida aos poucos, conforme recomendação. A pequena maleta aberta sob a luz do abajur.

    O início. O meio.

    A noite antiga. Azul.

    Ouvia-se o mar.

     

    Ernane Catroli é mineiro (Sant’Anna de Cataguases – MG). Reside no Rio de Janeiro. Publica em alguns blogs dedicados à cultura.

     

     

  • Clássicos da minha estante

    Pedimos ao escritor Tiago Germano uma lista de obras que valeram como clássicos na sua formação como leitor. O resultado foi o texto primoroso que segue:

     

    1. Éramos Seis, de Maria José Dupré

    Comecei a ler ficção aos doze anos. Minha mãe fazia o curso de Letras à noite e me deixava em casa cuidando dos meus dois irmãos mais novos. Não tínhamos o hábito da leitura e geralmente passávamos o tempo livre brigando pelo controle remoto – eles querendo ver os desenhos da TV Cultura e eu uma novela do SBT que, talvez por tratar de uma família com irmãos mais ou menos da nossa idade, tinha me chamado atenção: “Éramos Seis”. Um dia, minha mãe me disse que aquela novela tinha sido baseada num livro. O romance da coleção vagalume chegou às minhas mãos na mesma noite, emprestado da biblioteca da faculdade. Paramos de brigar pelo controle remoto porque agora, sempre que eu perdia um capítulo, eu podia ver o que acontecia nas páginas do livro. Quando a novela terminou e perdi o interesse pela leitura, minha mãe achou uma outra maneira de me convencer a ler: a cada livro da biblioteca que eu terminasse, ela me traria um salgadinho específico da cantina da faculdade. Achei o trato justo. Passei a devorar os livros para devorar os salgadinhos. Li quase toda a biblioteca de ficção do curso de Letras daquela faculdade e me tornei um adolescente bastante rechonchudo e ensimesmado. Apesar disso, sempre que me lembro dessa época, sinto uma ternura especial pela minha mãe e pelo livro da Maria José Dupré, meu primeiro e quiçá mais importante clássico.

     

    1. A Morte do Super-Homem, de Dan Jurgens

     

    Estaria sendo injusto se não incluísse os quadrinhos entre as minhas experiências de leitura: foram eles que primeiro me atraíram, muito antes dos livros. Uma das minhas grandes frustrações na infância, por exemplo, foi nunca ter podido assinar os gibis da Turma da Mônica porque o meu pai, guiado por um senso pedagógico um tanto questionável, achava que personagens como o Cascão, que não tomava banho, não eram uma influência positiva para uma criança. Quando consegui juntar meu próprio dinheiro, fui a uma banca com o intuito de comprar um almanaque do Cascão pra diminuir o trauma, mas me deparei com uma revistinha de capa preta com o símbolo do Super-Homem se desmanchando em sangue. Voltei pra casa com ela e a partir de então acompanhei todo esse arco do personagem da DC: a morte, o velório, a ressurreição, a revanche do herói contra Apocalipse. Décadas depois, voltei a ler quadrinhos pelos romances gráficos de Eisner e Spiegelman, sempre com o mesmo deslumbre pueril que tive nessa fase.

     

     

    1. Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas

     

    Li no final da adolescência, em viagens semanais que fazia me acotovelando com outros estudantes, na traseira de bandinhas lotadas que nos levavam de Campina Grande, cidade onde eu estudava, para várias outras cidades do interior da Paraíba. Cada casa de taipa na beira daquela estrada já abrigou um castelo medieval; cada cavalo galopando naquela terra já foi montado por um cavaleiro de capa e espada que enfrentaria, com coragem e bravura, os desmandos de um cardeal. Foi minha primeira leitura de fôlego, feita pelo simples prazer de ler.

     

    1. Fome, de Knut Hansum

     

    Pela filiação do autor ao nazismo, é bem possível que poucas pessoas tenham tido a oportunidade de fazer a leitura que eu fiz de Knut Hamsun quando era apenas um moleque, e achava que não tinha tempo a perder com o texto introdutório de “Fome” – que eu pensava que se lesse “F.Ome”, por causa da mancha de tinta na capa daquela edição. Tratava-se da esquecida tradução feita pelo Drummond para o Círculo do Livro, um texto que me pegou de jeito com um tipo de literatura à qual eu não estava acostumado, com personagens menos superficiais, repletos de conflitos internos. Só muito depois fui notar, um tanto constrangido, os narizes torcerem quando citava Hamsun como um dos autores essenciais para minha formação.

     

    1. Dois Irmãos, de Milton Hatoum

     

    Numa lista de leituras recomendadas para o vestibular de medicina que eu pretendia fazer, descobri que havia uma coisa chamada literatura brasileira contemporânea. Eu me deitei no piso frio de azulejos do pergolato da minha tia com aquele livro. Era hora da sesta. Só algumas horas depois eu consegui tirar os olhos daquilo e me sentir existindo debaixo do sol que ardia naquela tarde. A luz ofuscava minha visão mas quando eu fechava os olhos o desenho que eu via não era do céu, mas de um lugar que subitamente me parecia muito mais real que o lugar onde até então eu vivia. Desisti do vestibular de medicina e escolhi um outro caminho que pudesse me levar constantemente àquele lugar, o único em que acho possivel viver agora, o único em que, como diria Javier Marías, um romancista pode achar suportável viver em qualquer época: a ficção.

     

    1. Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez

     

    O clichê inevitável, num período em que a gente é aquele clichê ambulante do jovem escritor se debatendo na angústia da influência de um mestre. No meu caso, Gabo, uma influência tão castradora e acachapante que sua literatura virou tema de um mestrado que nunca consegui concluir. Tive que me afastar de sua obra até muito recentemente, perto de sua morte, quando me senti preparado para abrir de novo algum livro seu sem sentir que estava indo até lá para aprender uma linguagem que, invariavelmente, eu ia tentar imitar nas crônicas que eu escrevia. Durante esse hiato, Gabo puxou outras referências importantes, como Rulfo, que me ajudou a parar de voar com as borboletas amarelas e colocar os pés um pouco mais no chão.

     

    1. Agonia na Tumba, de Tarcísio Pereira

     

    O espanto que tive quando li “Dois Irmãos” foi o mesmo que tive quando li esse romance curto do paraibano Tarcísio Pereira. Então havia literatura sendo feita ali, muito perto de mim. Tarcísio me passou o seu livro no extinto Bar dos Artistas do Teatro Santa Rosa. Eu li o romance em uma madrugada, e perambulei no outro dia feito um morto-vivo pelos corredores do Decom, em João Pessoa. Foi a literatura de Tarcísio que me fez querer conhecer outros escritores da Paraíba. Depois dele veio Geraldo Maciel, cujo “Pequenas Criaturas” me lembrava os contos do Rulfo, e me mostrava que você não precisa de uma Macondo quando nasceu no Seridó, foi criado no Brejo e está começando a conhecer o mundo com toda essa herança.

     

    1. O Passado, de Alan Pauls

     

    Peguei  “O Passado” depois que li uma entrevista de Alan Pauls em que ele dizia que “não há experiência amorosa que não envolva a dimensão de um pesadelo”. Eu usei essa frase como uma das epígrafes do meu livro “A Mulher Faminta” (que sai ano que vem pela editora Moinhos) porque a própria ideia do romance foi roubada de Pauls. Explico. Na Flip de 2007, eu estava na plateia quando ouvi ele dizer que o título inicial de “O Passado” era “A Mulher Fantasma”, um título que era péssimo mas que traduzia perfeitamente o que representava a personagem Sofía: uma assombração que vez por outra retornava à vida de Rímini para atormentá-lo. Quando comecei a escrever o meu romance percebi que meu protagonista também era vítima de um espectro desses. Cheguei a pensar que meu livro poderia até mesmo se chamar “A Mulher Fantasma”, mas como o título era mesmo horrível achei por bem substituir a metáfora da fantasmagoria pela da fome, que agora me faz pensar em Hamsun, mas na época eu associava a esse apetite que a experiência amorosa parece ter de fagocitar as coisas, de devorar a própria vida, uma experiência muito maior e mais potente que o amor.

     

    1. Mãos de Cavalo, de Daniel Galera

     

    Aqui, aquele mesmo espanto de “Dois Irmãos” e “Agonia na Tumba”, com um pequeno adicional: é muito diferente quando quem está escrevendo é alguém mais ou menos da mesma geração que você – não um avô, não um tio, mas um irmão de época. É um livro do Galera que, mais que ler, estudei, tentando aprender um pouco com sua estrutura temporal paralela, que até hoje acho muito bem realizada. É talvez o livro dele de que mais gosto e é um autor que acompanho, entre muitos escritores e escritoras de carreira mais recente que leio.

     

    1. Bonsai, de Alejandro Zambra

     

    Porque quando você passa a vida imerso em narrativas que te acompanham por dias, semanas a fio, até serem esquecidas ou raramente lembradas, você passa a nutrir um carinho especial por aquelas que te acompanham por algumas poucas horas e conseguem se tornar parte permanente de você. Em algumas dezenas de páginas, Zambra conta uma história de amor pelo amor e de amor pelas histórias, um livro que é uma aula de metanarração, com suas camadas perfeitamente podadas e sua forma sendo a metáfora perfeita desse bonsai: uma árvore que, em miniatura, tem tudo o que uma grande árvore tem.

     

    Tiago Germano é escritor e jornalista. Seu livro de crônicas “Demônios Domésticos” sai neste próximo semestre pela editora Le Chien.

  • Clayton, meu pai — Arthur Telló

    Naquele verão, meu pai ligou pra minha mãe perguntando se a gente não podia largar tudo e ir morar com ele na praia. Ele tinha conseguido uma casa com um homem chamado Sérgio, um ex-alcóolatra que meu pai conheceu no A.A.. Minha mãe não pareceu convencida. Não sei, Clayton, ela disse. Não acho uma boa ideia. Eu olhava para minha mãe na esperança de entender o que ela e meu pai diziam. Ele disse, Manda um beijo para a Bárbara. Eu sei disso porque minha mãe me olhou e disse, Teu pai te manda um beijo. Eu fiquei em silêncio, encolhida, com uma sensação ruim no estômago e na garganta. Minha mãe disse, Ela te manda outro, e desligou o telefone.

    Cinco dias depois meu pai ligou de novo. Eu atendi. O que tu acha de passar as férias com a mamãe e o papai?, ele perguntou com uma voz simpática. Eu não respondi. A gente vai poder começar de novo, Bárbara, ele disse quando apareceu minha mãe e tomou o telefone da minha mão. Pronto, ela disse séria. Sim, eu pensei. Minha mãe tinha me perguntado na noite anterior o que eu achava de a gente voltar a morar com meu pai. Eu disse que não sabia. Minha mãe disse que não faria nada que eu não quisesse. Se tu acha uma má ideia, não vamos, ela disse. Eu me encolhi na cama e disse baixinho, com muito medo de dizer algo errado e ofender a minha mãe, Podemos tentar, não? Ela me olhou e não disse nada. Seu rosto endureceu, e isso me incomodou. Pelo telefone minha mãe disse que se meu pai prometesse se comportar, ela e eu iríamos até ele. Promete?, ela perguntou. Não sei o que ele disse, mas em seguida a voz da minha mãe ficou embargada e demorou para sair. Tá bem, ela disse.

    Durante o verão meus pais me levavam para a praia de manhã, a gente fazia castelos de areia e jogava frescobol. Eu usava um boné e uma camiseta da Sundown, brinde do protetor solar. Tudo cheirava à maresia e a protetor e em toda parte havia areia da praia. Minha mãe precisava varrer a casa duas vezes por dia, mas ninguém se importava com isso. Em casa a gente tomava suco, água, refri e meus pais bebiam muito café. Mal meu pai via minha mãe na sala, ele perguntava se ela queria um pouco. Sim, ela dizia, e pouco tempo depois aparecia uma xícara em suas mãos. Às terças e quintas chegava o Sérgio, um sujeito gordo, de pernas curtas, em um Jipe vermelho e levava meu pai para suas reuniões do A.A. Meu pai dizia que os dois iam para um lugar onde cuidavam para ele não beber mais. Minha mãe ficava feliz e me abraçava forte quando meu pai entrava no carro de Sérgio e ia embora com ele. Acho que fizemos uma boa escolha, ela disse uma vez, não acha? Eu disse que achava. Tu tá feliz?, ela perguntou. Sim, eu estou, eu respondi, e minha mãe me pegou nos braços e me levou para tomar sorvete de chocolate na esquina de casa. Mas, em geral a gente ficava na sala vendo TV. Só uma noite ela me levou para tomar sorvete. Eu tinha medo, mas depois de um tempo, me peguei pensando no verão. Não queria que ele acabasse. Minha mãe estava sempre contente, de bom humor, e sorrindo muito. Suas olheiras tinham sumido e ela usava maiôs e vestidos de flores que mostravam suas pernas compridas, suas formas suaves. No seu dedo voltou a brilhar a aliança. No do meu pai não, porque uma vez em que ele chegou em casa bêbado e cheirando mal, ele e minha mãe brigaram, e ele jogou a aliança dele na rua. Não preciso dessa merda, ele disse. Mas isso parecia há muito tempo. Como ela é bonita, eu pensava, ao sair do mar e ver minha mãe debaixo do guarda-sol. Meu pai olhava para ela e sorria. Eu olhava para os dois e sorria também. Meus cabelos castanho-claros eram iguais aos dela, assim como minha boca fina, enquanto meus olhos escuros eram do meu pai. Filha, olha o que eu trouxe para ti, disse meu pai depois de uma das suas reuniões do A.A.. Ele me olhava como se fosse fazer uma brincadeira enorme, impossível de imaginar. Bem diferente dos olhos vermelhos do passado, eu pensei. Seu rosto não estava inchado, mas magro, com rugas profundas em torno ao nariz de boxeador. Numa noite, ele brigou com um desconhecido no bar e voltou para casa com o nariz daquele jeito. Eu nem lembrava mais como era o nariz dele antes disso. Ele disse para eu fechar os olhos. Eu fechei e quando ele disse, Abre, eu vi um pequeno chapéu de palha na minha frente. Pus o chapéu e perguntei pra minha mãe, Estou bonita? Estou bonita, mãe? Ela disse que eu estava linda, aproximou-se do meu pai e os dois se beijaram.

    Acontece que o Sérgio deixava a gente ficar na casa dele por quase nada. Minha mãe não precisava trabalhar, e meu pai de vez em quando podava o jardim de algum vizinho. Fora isso, todo o tempo dele era para nós. Um dia meu pai estava trabalhando no jardim, quando chegou Sérgio no seu Jipe. Ele parou em frente à porta da garagem, saiu de lá, ajeitou a barriga enorme e pôs a mão no ombro do meu pai. Minha mãe e eu, a gente estava lavando louça e se surpreendeu com aquilo. Era sábado. Impossível ouvir qualquer coisa, mas eu percebi como o rosto do meu pai foi se fechando, e o nariz o deixava com uma expressão agressiva, como um cachorro com medo. Primeiro meu pai ficou pálido e depois duro. Ele olhava para o chão e não lembro de ele ter olhado para o rosto de Sérgio. Não sei por que, mas isso me machucou. Alguma coisa estava errada. Minha mãe foi até a porta e quando eu perguntei o que estava acontecendo, ela me mandou ficar quieta. Então o Sérgio cumprimentou meu pai, deu um tapinha no seu ombro, entrou no carro e foi embora. Meu pai entrou em casa e sentou no sofá, sem dizer nada.

    Clayton, o que foi?, quis saber minha mãe.

    Meu pai não olhou para ela, mas para mim. Não disse nada.

    É verdade?, minha mãe perguntou.

    O rosto do meu pai estava diferente. Ao lado dos olhos escuros, pequenas rugas apareceram. Ele parecia mais velho do que era.

    Clayton, me responde.

    Ah, cala a boca, meu pai disse, se levantando do sofá e caminhando até a cozinha. Eu e minha mãe nos olhamos e ouvimos ele servir o café.

    Quando ele voltou para a sala, minha mãe pediu que ele explicasse o que aconteceu.

    O filho da puta do Sérgio quer a casa de volta, meu pai disse. Ele sentou de novo no sofá e disse que a filha do Sérgio, a Amanda, uma mulher tão gorda como ele, que meu pai antes chamava de Baranga nos seus tempos de bebedeira, perdeu o marido. Meu pai disse, O cara viu o inferno em que tava metido, pegou o carro e deu no pé. Eu não culpo o cara, mas agora o Sérgio nos f…(e meu pai olhou para mim)..errou.

    Calma, minha mãe disse. Não vamos nos estressar.

    Ela quer que eu não me estresse, meu pai disse, ríspido. Ele já não olhava para mim nem para minha mãe. Fiquei tensa, os nervos à flor da pele.

    Nós vamos dar um jeito, minha mãe disse, sem convicção.

    Como?, ele perguntou. A gente tá fodido.

    Minha mãe disse para ele não falar assim, que eu podia ouvir.

    Meu pai ficou calado, tomou um gole de café e não falou nada.

    A mãe foi até a cozinha e perguntou se eu queria suco. Ela abriu a geladeira, a geladeira de Sérgio, eu pensei, branca, velha e encardida, e tirou de lá uma jarra de plástico transparente cheia de suco de laranja. A jarra era do Sérgio, assim como o copo de requeijão com que minha mãe me serviu, a xícara que depois ela encheu de café, o sofá onde meu pai estava sentado, e as janelas por onde eu olhava. Eu começava a compreender. Pelas janelas entrava um vento que trazia o cheiro do mar e, por trás delas, eu via um céu azul coberto de nuvens escuras, com cor de sujeira. Vai chover, eu pensei.

    Sentada ao lado do meu pai, minha mãe disse com uma voz doce que aquele tinha sido um bom verão. Ela disse, Fico feliz de tu ter encontrado essa casa e nos dado esse tempo. Ela disse que a gente pareceu uma família.

    As palavras da minha mãe, todas no passado, me deram mal-estar. Olhando pela janela e escutando suas vozes, era como se meus pais falassem de algo que tinha acontecido há muito tempo. Algo que tinha acabado. Eu desejei que aquela tensão terminasse de vez. Ali dentro, eu me sentia mal e sufocada.

    Meu pai então riu e disse, Aquele filho da puta nos fodeu direitinho. Ele sorriu para minha mãe e fechou os olhos. Por trás do nariz torto e do rosto magro, ele estava pensando. Minha mãe disse para ele pensar com calma e não fazer nenhuma bobagem. A gente ainda pode consertar tudo, ela disse.

    Como?, meu pai perguntou. Essa casa foi boa pra nós até agora, ele disse e depois continuou num tom mais baixo para eu não ouvir, Mas onde vamos encontrar outra? E como vamos pagar? Melhor esquecer isso e ir embora. Os dois ficaram em silêncio. Então meu pai disse, Obrigado por ter vindo, eu não vou esquecer.

    Minha mãe disse que estava feliz por ter vindo. Foi bom ter tido esse tempo pra gente, ela disse. E ouvir isso me machucou. Eles esqueceram de mim, eu pensei. Com o rabo do olho, eu podia ver como os dois estavam lado a lado no sofá, olhando para o chão.

    Por fim meu pai levantou, deu uma beliscada na minha bochecha, fechou as janelas e cerrou as cortinas, cortando o céu, as nuvens e o cheiro de mar. Ele me perguntou se eu não gostaria de dar mais uma volta na praia.

    Olhei para minha mãe, e ela não disse nada. Ela continuava a olhar para o chão. Nem ela nem eu sabíamos o que iria acontecer depois. Meu pai sabia. Somente ele sabia. Ele me pegou pela mão, eu senti sua palma suada, e, quando a gente quase saía da casa, minha mãe disse, Vocês podem ir. Eu vou pegar o resto de comida na geladeira e fazer o jantar. É pouca coisa.

     

  • Um livro por sua história

     

  • As mil e uma noites – Matheus Borges

    Conta a lenda que no Brasil Contemporâneo vivia um sultão chamado Abravanel. Ele era rico e possuía muitos meios de se comunicar com seus súditos. Todos os meses ele contratava belas mulheres para contar histórias. A aparição dessas mulheres era sempre sucedida por aparições do palhaço Chaves, como que numa tentativa de aliviar o clima trazido pelas novidades mais cruéis do mundo. Quando essas mulheres cansavam sua audiência, eram prontamente demitidas.

    Um dia, no entanto, a contratada foi uma moça chamada Sherazade, que já conhecia as práticas de Abravanel e tinha um plano para acabar com seu reinado traiçoeiro. Contar-lhe-ia, e à sua audiência, não apenas as histórias, como fizeram suas antecessoras. Faria de suas opiniões parte integral das notícias pré-Chaves e com isso aumentaria seu prestígio dentro do SBT (Sultanato Brasileiro de Televisão), de modo que o sultanato não pudesse operar sem ela.

    Durante as primeiras noites em que apresentou as notícias ao povo, o plano de Sherazade se mostrou exitoso. Com frases pungentes e chocantes, foi capaz de elevar o número de pessoas acompanhando as histórias. Mesmo os viajantes, os turistas e mascates, que cruzavam o SBT a caminho de terras mais distantes, todos eles paravam para ouvir sua voz, nem que fosse para se sentirem ultrajados com os desaforos proferidos pela moça.

    Vendo o efeito que Sherazade exercia sobre as multidões, o Sultão Abravanel manteve Sherazade como contadora de histórias por mais mil noites, mil noites em que o Sultanato lucrou cada vez mais e mais. Mil noites em que Sherazade foi parte indispensável da identidade do sultanato. Na milésima noite, o sultão Abravanel percebeu que Sherazade havia se tornado maior que as histórias. A mensageira era maior que a mensagem, mais ofuscante que a voz do sultanato. Algo precisava ser feito.

    Foi então que na milésima primeira noite, o Sultão chamou Sherazade para receber um prêmio, o prêmio mais importante que o Sultão poderia oferecer. Uma estátua esculpida em ouro maciço. No entanto, era preciso que isso acontecesse diante de milhões de pessoas, em um dos eventos mais prestigiados do Sultanato. O prêmio seria entregue pelo próprio soberano em seu luxuoso palácio chamado Templo dos Domingos. Ignorando o subterfúgio do Sultão Abravanel, Sherazade vestiu suas melhores roupas e compareceu ao evento, onde o Sultão Abravanel cortou sua cabeça e jogou ao povo.

    No dia seguinte, a cabeça de Sherazade circulou de mão em mão entre os habitantes de todo o reino.

  • a boa prosa

    Produção: Oblíquo Imagens