• Um livro por sua história

     

  • As mil e uma noites – Matheus Borges

    Conta a lenda que no Brasil Contemporâneo vivia um sultão chamado Abravanel. Ele era rico e possuía muitos meios de se comunicar com seus súditos. Todos os meses ele contratava belas mulheres para contar histórias. A aparição dessas mulheres era sempre sucedida por aparições do palhaço Chaves, como que numa tentativa de aliviar o clima trazido pelas novidades mais cruéis do mundo. Quando essas mulheres cansavam sua audiência, eram prontamente demitidas.

    Um dia, no entanto, a contratada foi uma moça chamada Sherazade, que já conhecia as práticas de Abravanel e tinha um plano para acabar com seu reinado traiçoeiro. Contar-lhe-ia, e à sua audiência, não apenas as histórias, como fizeram suas antecessoras. Faria de suas opiniões parte integral das notícias pré-Chaves e com isso aumentaria seu prestígio dentro do SBT (Sultanato Brasileiro de Televisão), de modo que o sultanato não pudesse operar sem ela.

    Durante as primeiras noites em que apresentou as notícias ao povo, o plano de Sherazade se mostrou exitoso. Com frases pungentes e chocantes, foi capaz de elevar o número de pessoas acompanhando as histórias. Mesmo os viajantes, os turistas e mascates, que cruzavam o SBT a caminho de terras mais distantes, todos eles paravam para ouvir sua voz, nem que fosse para se sentirem ultrajados com os desaforos proferidos pela moça.

    Vendo o efeito que Sherazade exercia sobre as multidões, o Sultão Abravanel manteve Sherazade como contadora de histórias por mais mil noites, mil noites em que o Sultanato lucrou cada vez mais e mais. Mil noites em que Sherazade foi parte indispensável da identidade do sultanato. Na milésima noite, o sultão Abravanel percebeu que Sherazade havia se tornado maior que as histórias. A mensageira era maior que a mensagem, mais ofuscante que a voz do sultanato. Algo precisava ser feito.

    Foi então que na milésima primeira noite, o Sultão chamou Sherazade para receber um prêmio, o prêmio mais importante que o Sultão poderia oferecer. Uma estátua esculpida em ouro maciço. No entanto, era preciso que isso acontecesse diante de milhões de pessoas, em um dos eventos mais prestigiados do Sultanato. O prêmio seria entregue pelo próprio soberano em seu luxuoso palácio chamado Templo dos Domingos. Ignorando o subterfúgio do Sultão Abravanel, Sherazade vestiu suas melhores roupas e compareceu ao evento, onde o Sultão Abravanel cortou sua cabeça e jogou ao povo.

    No dia seguinte, a cabeça de Sherazade circulou de mão em mão entre os habitantes de todo o reino.

  • Playlist da antologia “Enquanto o caos segue em frente”

    Aqui está, em primeira mão, a playlist, na ordem dos contos que os autores escolheram.

    A coletânea de contos baseados em canções inesquecíveis, da banda que para muitos de nós é a melhor. Muito amor!

     

  • a boa prosa

    Produção: Oblíquo Imagens

     

  • A garota do show — Cristina Vazquez


    Inspirado na canção de Bob Dylan Girl from the North Country

    Quando cheguei atrasada no show, esgueirando-me entre as pessoas para arranjar um lugar em frente ao palco, ainda ouvi Boa noite, St. Paul, um homem sempre volta pra casa. Para estar entre velhos amigos ou por um amor verdadeiro. Mas as fãs não me deixaram passar da terceira fila. Os cumprimentos do artista às vezes ocorrem no meio da performance, então não sei quantas músicas ele já tocara. Iniciaram-se os acordes de uma canção, e eu levei cotovelada de uma maluca, direto no queixo. Doeu. Uma inédita pra vocês, que compus na viagem à Inglaterra.

     

    De fato, o jornal de Saint Paul dizia que Bob Dylan voltara da Inglaterra há pouco e, embora já tivesse mudado para Nova Iorque e lá feito grandes concertos desde antes da temporada inglesa, o Minnesota deveria prestigiar a apresentação do filho ilustre naquela noite, pois a tendência era que rareassem suas vindas ao estado dali por diante.

     

    Recuei até encontrar um lugar ao fundo do Café.

     

    Se você estiver viajando para o norte do país

    Onde os ventos sopram forte na fronteira

    Fale de mim para alguém que mora lá

    Ela foi, outrora, meu verdadeiro amor

     

    A melodia entrou em mim e me deixei levar pela música. Iniciei um bailado lento, solto, com giros que me concederam mais espaço e o respeito de quem estava ao redor. Bob me olhou por longos segundos.

     

    Por favor, veja se ela está usando um casaco bem quente

    Para protegê-la dos ventos uivantes

     

    As fãs em frente ao palco se viraram, com seus penteados, joias e casacos peludos que iam até o meio de suas botas forradas e não deixavam passar um só vento frio. Achei engraçado porque eu não costumava chamar a atenção. Mas não era só a melodia. A letra amorosa me tocou, me fez sorrir, apreciar o movimento dos meus próprios cabelos, e ali me senti afortunada com minha Levi’s, a camisa xadrez e as go-go boots que comprei com as sobras do salário do verão e do outono.

     

    Por favor, veja pra mim se os seus cabelos estão longos

    Se balançam e escorrem pelo seu peito

     

    Bob me sorriu. E eu retribuí, lisonjeada com o galanteio, sobretudo feliz. Eu girava delicadamente, mais e mais, absorta na música, na letra. E em Dylan. De moça simples do Norte, incorporei a garota moderna até o final da apresentação.

    Ele saiu do palco direto ao bar. Com um copo de uísque, veio falar comigo, a menina desconhecida. Disse que a noite foi minha. Você foi a garota do show.

    Saímos para a escuridão pela porta do Café. Percebendo que eu tremia de frio, me vestiu com seu casaco de couro marrom, forrado de pele, que me ultrapassou as mãos e um tanto do quadril. Porque fiquei constrangida, acariciou meus cabelos na altura dos seios, até que eu lhe sorrisse. Caminhamos rumo à estação de trem, trocando ideias, bebendo e fumando. Deitamos nos dormentes e, sem me tirar a roupa, me fez ver as estrelas.

    Insistiu em me levar até a porta de casa. Quando lhe devolvi o casaco, disse que era meu.

    ***

     

    Dylan acaba de ganhar o Prêmio Nobel de Literatura. Surpresa agradável. Embora não ligue, ele merece o mundo. Girl from the North Country é minha canção favorita nesses mais de 50 anos em que ele celebrou o amor e a paz. Não me importa saber se foi composta em homenagem a seu primeiro amor ou à namorada da época. Naquele show, a garota do Norte fui eu. Passo o dia pensando em minha própria comemoração.

    À noite, dou o remédio do meu marido e um chá com bolinho para a nossa neta.

    Depois que dormem, vou até o sótão pegar no cabide a peruca que acompanhou meu antigo câncer. Ao fundo do armário, encontro a caixa azul, em que guardo a lembrança de Bob. No espelho, tiro os óculos de descanso, arrumo os brancos para trás e deixo a peruca longa acariciar meus seios mutilados. Visto o velho casaco marrom, forrado de pele, e sorrio satisfeita com o meu estilo.

    Desço para uma dose de uísque antes de correr na noite fria até a estação.

    Danço nos trilhos, choro, e tenho comigo, de novo, as estrelas.

  • Vídeo poema “Sacrifício negado”, de Gabriela Silva

    O poema “Sacrifício negado” estará no novo livro da autora Gabriela Silva.

  • imagem gentilmente cedida pelo artista Pré-estreia

    A Pluma e o Touro    —   Barbarella Lobo

     

    Não houve um chamado, uma indicação ou momento. Ela apenas soube. Dentre tantas madrugadas sufocantes, houve uma em que acordou. Os poros expeliam água e sal, a pele febril comichava. Enxergava coisas estranhas, células esféricas, de um vermelho vivo, viajavam em alta velocidade por densos tubos. Numa corrida caótica, as células percorriam o interior de suas veias rumo ao potente músculo, que inchava e depois explodia, impulsionando novo trajeto. O peito retumbava. Não voltaria a dormir.

    Desceu a escada de madeira, pé por pé, as juntas com seus estalos involuntários, comuns após períodos de repouso, entregando a fuga. Agarrou-se ao corrimão. Pretendia descer apoiada somente pela força dos braços, ou de forma que menos fizesse barulho, como pluma.

    Abriu a porta, ganhou a rua. A aragem da noite brincava com seu cabelo, despenteava os curtos fios da testa. Ela respondia com suaves toques, as polpas dos dedos escorregando pela têmpora, e um breve sorriso. Sensação de carinho, como nunca experimentara.

    No final da rua, o bosque. Ela não teve medo, não hesitou por um momento sequer. Segurou a barra do vestido para não prender nos espinhos da vegetação baixa. E seguiu. Alguns passos adiante, o avistou. Nada além da lua cheia a iluminar a clareira.

    Aproximou-se com cuidado, sem encará-lo. Colou a cabeça em seu peito, sentiu seu cheiro forte, as unhas arranhando o couro duro das costas. Em resposta, um grunhido, depois um uivo.

    Deitou-se sobre a grama, escorou as costas numa pedra e ofereceu o corpo ao escrutínio. Levantou o vestido até a cintura, mas manteve as sandálias de tiras finas. O brilho da lua refletia os fios prateados, entrelaçados ao tecido branco do vestido.

    Nua por baixo, era toda espera. Fechou os olhos ao sentir que chegara a hora.

    Estremeceu quando algo macio a invadiu. Tentou lutar contra, mas a vontade de repelir era tão intensa quanto a de aceitar. Confusa, optou pela entrega.

    Deitado sobre o corpo dela, ele iniciou movimentos leves, repetindo a ida e a volta com a paciência de um caçador em tocaia. O movimento a excitava, mais e mais, até que ela não agüentou. Arranhou, mais uma vez, as costas dele, e balançou os quadris. Queria-o mais veloz. Ele soltou um uivo agudo e levantou bem a cabeça. Foi quando a lua refletiu seus caninos pontiagudos. Em resposta cravou os dentes no ombro esquerdo dela. Lambeu o sangue escuro que escorreu em direção ao seio. Ela gritou. Agarrou-se às nádegas dele, e as pressionou. Com força e mais força.

    Ergueu os quadris, enlaçou as pernas sobre o corpo que a oprimia, e o pressionou contra si. Não queria mais, nunca mais, desvencilhar-se daquele entrós.

    Gritou, agarrou-se aos pelos, aos chifres. Explodiu num gemido abafado, um gozo contido havia tempos finalmente fora derramado, espalhado pelo bosque, pelas ruas do vilarejo, despertando curiosos, beatas e padres, presos e homens fardados, putas e tarados.

    O uivo dele veio em seguida, mais alto. Explodiu, invadiu casas, abriu janelas e portas, causou inveja, provocou temor e respeito. A lua se pôs e a cidade amanheceu, em paz.

     

    Conto inspirado na obra “Estudio para Minotauro” (2009), de Alejandro DeCinti.

    O artista cedeu a imagem para ilustrar o site.

    Mais sobre DeCinti:

    http://www.decinti.com/