• Águas do meu batismo

    por Ernani Catroli

    As cores da manhã e o ruído crescente das ondas na areia. Baixa temporada agora. Seguia pela aleia de cascalho que levava ao casarão de dois andares. Pensão do Farol. Ao abrir a porta, Dona Jovita, o semblante rijo.  Mais magra. Cabelos ralos.

    Mas é Milena quem emerge do ambiente. Muitas vezes. Milhares de vezes.

    Toda a nossa louca juventude e aquela gravidez atropelando os dias.

    Faremos, então, o combinado.

    ***

    O lado do quarto onde permaneço mudo e a voz imperativa de dona Jovita. Milena deitada na cama de solteiro. Os olhos aumentados.

    Sobre o criado mudo, a infusão de ervas para ser ingerida aos poucos, conforme recomendação. A pequena maleta aberta sob a luz do abajur.

    O início. O meio.

    A noite antiga. Azul.

    Ouvia-se o mar.

     

    Ernane Catroli é mineiro (Sant’Anna de Cataguases – MG). Reside no Rio de Janeiro. Publica em alguns blogs dedicados à cultura.

     

     

  • Odalisca

    por Irka Barrios

    Malena disse que não se arrependia.

    − Nem um pouco – frisou as sílabas, movimentando os lábios com exagero.

    Soltou o cabelo e inclinou a cabeça bem para trás, o coco tentando tocar as costas, como era seu costume desde a adolescência. Balançou o pescoço para lá e para cá, a boca entreaberta e os pesados cachos a dançar em volta da cintura. Serviu mais uma dose de bourbon, piscou para Diogo e rumou para o deck. A porta de vidro deslizou e nós permanecemos ali, embasbacados. Da mesa que dividimos durante as últimas quatro horas também era possível apreciar as cores do fim de tarde, com um atrativo a mais: a sobreposição da silhueta de Malena. Os seios pequenos, os braços finos a afastar os cabelos e as longas pernas adequavam-se ao todo, como parte da paisagem.

    Paulo Renato deu um cutucão no braço de Diogo:

    − Fica na tua!

    − Aaaauuu, pai – o garoto reclamou.

    − E você – dirigiu-se para mim, com o dedo em riste – tá feliz com a confusão?

    Repeti, pela décima vez e em tom sussurrado, que a situação era provisória. Malena arranjaria um lugar, precisávamos, apenas, acolhê-la neste momento conturbado. Eu nunca deixaria minha amiga na mão e, poxa, nossa casa com dois quartos sobrando, carro extra na garagem, Paulo Renato e eu bem empregados, Diogo na faculdade, qual o problema em ajudar?

    Ele resmungou alguma coisa que não ouvimos e subiu para o quarto, onde passou o resto da noite. Diogo me ajudou a retirar a mesa e ajeitar a cozinha.

    − Será que é tudo verdade?

    Olhamos, juntos, para fora. Malena continuava na mesma posição: sentada na ponta da cadeira de abrir, uma perna reta, o pé apoiado no piso e outro joelho curvo. A cabeça inclinada como se aguardasse o brilho da primeira estrela e os cachos ao sabor da brisa. Brincava, soprando o tecido do guardanapo lilás.

    − Ela sempre inventou histórias – respondi.

    Na tarde seguinte, invadi o quarto de hóspedes:

    − Conta mais do sultão.

    − Ah – ela disse – é aquilo que contei. Não tive um encontro privado, eu não era das favoritas.

    − Mas…

    − Nada demais – Malena me interrompeu – um harém não é como nosso imaginário cria. É só um bando de mulher que deve ficar linda e loura, à disposição.

    − Mas e as roupas? Os presentes?

    Malena gargalhou. Disse que se eu a imaginava de odalisca, num grande salão de banho, massageada por eunucos, me enganara feio.

    − Infelizmente – completou. Gesticulou com as mãos, convidando-me a sair, precisava trocar de roupa. Assim, como se nunca tivéssemos dividido intimidades.

    Decepcionada, afastei-me de Malena. Compareci a compromissos que antes eu recusava, fiquei muito tempo fora de casa, queria castigá-la, fazer com que sentisse minha falta.

    Três dias depois, entrei em seu quarto sem bater e me deparei com Diogo nu, admirando o umbigo de Malena. Levei uns segundos para compreender. Dança do ventre? Véu?

    − Não acredito que você está contando a história que me negou.

    Furiosa, bati a porta, enchi um copo de bourbon sem gelo e sentei na varanda. Acendi um cigarro esquecido sobre a mesa, mas não sabia mais tragar. Tossi, me engasguei, os olhos lacrimejaram e mesmo assim virei o copo.

    Na semana seguinte foi a vez de Paulo Renato.

    − É Madalena, mas tirei o da – ela dizia quando os flagrei. Virou-se para mim e tocou de leve meu quadril – o da é para pessoas especiais.

    A antipatia inicial virou amizade e Paulo Renato não demorou a deitar na cama de Malena.

    Chorei, bebi, saí dirigindo feito louca. Passei cinco dias fora, sem dar notícia. Dormi cada noite num hotel, também precisava variar.

    Malena me esperava, sentada na soleira da porta da frente, no dia em que minha resistência fracassou.

    − Tá bem – ela disse. Me abraçou forte, me beijou com a ternura dos amores esquecidos e choramos juntas. Durante a noite, invadi o quarto dela mais uma vez. A odalisca me esperava, só afastou as cobertas para que eu pudesse me aconchegar.

     

  • É tudo noite : Resenha

    por Ana Luiza Tonietto Lovato

    Quando li É tudo noite, da Fátima Parodia, não pude evitar uma imagem que guardo desde a infância. Minha mãe, assim como minhas tias e avó, para onde quer que fossem, jamais saíam sem um tricô. Assim que se sentavam em círculo, cada uma puxava o seu trabalho e, entre uma história e outra, materializavam mantas e casacos com aquelas mãos irrequietas. O que me impressionava nesses encontros não era o que falavam, mas a destreza com que manejavam as agulhas e o fio. Com apenas isso, duas agulhas e um fio, teciam uma infinidade de pontos que, combinados entre si, resultavam em peças sempre inéditas, capazes de tornar belo e aquecido qualquer um que as vestisse.

    É assim, encantada, que me sinto em relação aos 11 contos que compõem o primeiro livro solo dessa autora portoalegrense. Com as palavras que tira de um inseparável balaio de emoções, Fátima tece frases de pura poesia, o ornamento para o mais miúdo cotidiano que escolheu nos apresentar. Através de personagens comuns, recolhidas das ruas por onde passamos sem nem perceber, ela fala dos medos que atravessam o tempo e se perpetuam na conversa dos velhos e das crianças. Medos que são os nossos e que, não poucas vezes, preferiríamos deixar camuflados na noite.

    Mas Fátima não se intimida. Com sua prosa precisa vai entremeando também o fio da coragem nesse trabalho incessante de tecer a vida. Com a persistência de quem não pode viver sem fazer literatura, aquece-nos com a beleza dos seus textos, mostrando que do outro lado da escuridão, está a luz. A luz das suas palavras.

  • Tudo a mesma m.

    por Irka Barrios

    − OK – disse o pai após um suspiro − vamos fazer de conta que é uma corrida de carros. Me empresta teus Hot Wheels – apontou para a coleção do filho. − Não só os novos, pega os velhinhos. Os mais simples também, pega todos.

    Esticou o tapete em trilho da cozinha e posicionou os carros nas margens. Depois escolheu os mais valiosos e deixou numa posição privilegiada, em cima de uma almofada grande, para assistir a corrida.

    − Esses aqui são os deputados e senadores da república. E esses – mostrou os carros menos valiosos – somos nós.

    − Nós? – o menino se interessou.

    − Os eleitores – explicou o pai. – Somos nós que escolhemos aquele grupo de carros mais bonitos que assistem a corrida da almofada.

    Antes do filho perguntar por que os eleitores eram os carros feios e os políticos os bonitos, adiantou-se:

    − Deputados e senadores ganham bem.

    − E por que você não quer ser deputado?

    − Ah, filho. Não é tão simples. Para se eleger você tem que ter muitos destes carros feios votando em você. Porque o deputado é o cara que representa o povo.

    − Mas os carros bonitos não são os mais caros?

    − Vamos falar da corrida – o pai desviou o assunto. Achou traumático explicar como e porque os deputados ficavam ricos. Pegou um carro vermelho e outro azul. Posicionou-os na largada. – O vencedor manda em todos.

    − Para sempre? – o filho abriu bem os olhos.

    − Em alguns casos sim, mas aí são monarquias. Reis, quero dizer. No Brasil não. O vencedor manda por quatro anos.

    − E todos os carros bonitos obedecem?

    − Não – o pai separou os carros bonitos em dois grupos − alguns obedecem, os  aliados. Os que desobedecem são a oposição.

    − Ah – o garoto ergueu uma sobrancelha − e os que desobedecem vão presos?

    − Não, filho – disse num tom repreensivo − é saudável ter oposição. Quando não há, temos um caso de ditadura. É quando um só carro corre, sempre sozinho, e ninguém o atrapalha. Quer dizer que ele vence sempre – segurou um dos Hot Wheels mais valioso e o fez deslizar pelo tapete.

    − E quem assiste, gosta?

    − Uns sim, mas a maioria não. Mas o Brasil não tem isso – sentiu uma coceira na garganta. Tossiu alto até escorrer lágrimas dos olhos. Foi até a pia, serviu um copo com água e voltou para o lado do garoto que empurrava os carrinhos rumo à linha de chegada.

    − Esse ganhou, pai – mostrou o carro vermelho.

    O pai riu.

    − Ganhou, mas o piloto foi retirado do pódio.

    − Mas – o garoto ficava cada vez mais confuso – isso vale?

    − Vale, se os carros bonitos que assistem a corrida da almofada decidirem que sim.

    − E então o segundo lugar ganha, é?

    O pai riu de novo, bem alto.

    − Não filho, em casos assim o copiloto fica no pódio.

    − Ah, mas carros bonitos que não gostam do piloto podem gostar do copiloto? Por que não colocaram logo o copiloto a dirigir?

    − Porque, no caso do nosso país, o copiloto não venceria nem corrida de tartaruga.

    O garoto ficou olhando para o tapete. O pai se absteve de explicar o que fazia os carros bonitos que assistem a corrida da almofada gostar ou desgostar do piloto. Também não quis contar que, no nosso caso específico, mesmo não havendo lugar no pódio para o segundo lugar, ele participava da festa e bebia a champanha do copiloto.

    − E o que acontece com o piloto que venceu a corrida?

    − Sai da pista – o pai calou-se uns instantes, procurando as palavras menos dramáticas. – Ah, sai da pista e fica um tempo sem correr, como castigo.

    − Hhhmmm, o piloto expulso fez alguma coisa grave, como trapacear ou bater em alguém?

    − Mais ou menos. Ah, quer saber? – o pai alterou-se – nesta corrida maluca todos fizeram coisas graves, pilotos, copilotos, os carros que assistem da almofada, comentaristas. Alguns cometeram erros gravíssimos, como atropelar os carros feios que assistem. E segue tudo a mesma m…

    − Essa corrida não tem muito sentido – disse o garoto após recolocar os carros na linha de partida. − Mas tem alguém que organiza, né? Que decide se é justo ou não gostar do piloto. Um árbitro, como no futebol.

    − Rodrigo, me dá uma mão aqui – a mãe gritou do quarto – é urgente.

    O pai correu para ver o que se passava. Chegou no quarto e ouviu os resmungos da mãe: “hhhhmmm, Jesus, nunca vi tanta sujeira”. Abanou o nariz para afastar o cheiro que recendeu no quarto, foi ao banheiro buscar uma bacia com água e sabonete. Só os lenços umedecidos não dariam conta. Após alguns minutos,  voltou à sala com as fraldas sujas na mão:

    − Onde eu estava mesmo?

     

  • Fim de feira

    por Irka Barrios

    Gemma não apareceu na quarta-feira após a Páscoa e achamos que decidira estender a visita na casa do filho. Na semana seguinte também não apareceu. Ela não ficaria tanto tempo em São Paulo, reclamava que a nora não a queria por lá, então matutamos sobre outros motivos para a ausência. Poderia ser um resfriado, nesta época de mudanças de temperatura, ou a temida gripe A. Judite protestou, Gemma vivia se exibindo com seus hábitos de alimentação saudável e cuidados físicos. Contava que fazia hidroginástica duas vezes por semana, massagem estética, acupuntura e shiatsu com um senhorzinho japonês que curava as piores dores com a pressão do polegar. Uma mulher de hábitos tão saudáveis não ficaria doente por duas semanas.

    Na terceira falta sem notícia, começamos a nos preocupar de verdade. Sentadas em nossas cadeiras, observamos a dela vazia, um tanto contrariadas. Passamos a teorizar se Gemma possuía algum segredo, uma doença que desconhecíamos. Artrite, quem sabe? Cálculo renal? Sabíamos tão pouco dela quanto de nós mesmas. Nunca fomos confidentes, nem o número do telefone havíamos trocado. Ela teria e-mail? Whatsapp? Nervosa com nossa passividade, Judite se prontificou:

    − Sei qual é o prédio dela. Vou bater lá.

    Saiu com seu balançado de ancas volumosas, os quadris dançando para lá e para cá, e prometeu voltar em meia hora. Não podíamos esperar, Jandira e Ivete tinham compromisso, mas a curiosidade foi tanta que pedimos outro café e concordamos, todas, em atrasar os afazeres do resto do dia.

    Judite voltou no tempo previsto, cabisbaixa. Não conseguira contato, Gemma não quis recebê-la. Mesmo assim, especulou o porteiro o quanto pôde. O homem disse que tudo seguia normal, Gemma ainda saía para suas atividades, embora ele tenha notado um ar mais fechado na senhora tão alegre. Fora isso não sabia de mais nada, não era empregado bisbilhoteiro do tipo que fica cuidando a vida dos moradores. Desanimadas com a falta de consideração, bebemos os últimos goles de café e partimos.

    Na quarta-feira seguinte a ausência foi assunto inicial, apenas. Mantivemos a cadeira de Gemma vazia e comentamos a queda de qualidade da banca do Beto. O moço, sempre tão simpático, oferecia as melhores frutas e verduras da feira. Contava que produzia tudo em seu sítio, para os lados de Águas Claras. De um mês para cá, entretanto, algo aconteceu. As frutas perderam o viço e as verduras murchavam no dia seguinte após a compra. Judite mencionou a amizade que havia entre Gemma e Beto:

    − Ela sempre trazia uma fatia de bolo ou um biscoito caseiro para ele.

    − Da última vez que sentamos as cinco – Ivete lembrou – Gemma não ficou muito. Tinha voltado da banca do Beto com as mãos vazias e uma cara estranha.

    − Lembram que ela dizia que Beto dava os ares de um namorado da juventude? – disse Jandira.

    O assunto abriu sorrisos e nossos livros de memórias. Nostálgicas, bebemos o café saboreando os amores contidos do passado. Acertamos a conta, pegamos as sacolas de produtos comprados no concorrente e seguimos nossas vidas. Nenhuma cogitou ir até Beto perguntar se ele sabia de algo.

    Na mesma quarta-feira em que a dona do café solicitou a cadeira que Gemma ocupava, notamos a falta do Beto. Não caminhávamos mais até sua banca, desistimos de comprar lá. Ouvimos falatórios, a maior parte dos produtos dele acabava ficando para a xepa de tão ruins.

    E assim seguiram-se diversas semanas sem maiores explicações. A ausência de Gemma tornou-se normal, não falávamos mais nela e a nossa mesa do café agora tinha quatro, não mais cinco cadeiras.

    Uma tarde, no supermercado do bairro, a encontrei. Vinha altiva, o carrinho de verduras frescas conduzido pelo braço cheio de pulseiras tilintantes, como na época em que flertava com Beto. Não me contive e perguntei o que havia acontecido para ela tomar uma decisão tão estranha.

    − E o Beto? – A pergunta de Gemma se interpôs ao questionário que eu começava a fazer.

    − Fechou a banca. Logo depois de você…

    Gemma me interrompeu mais uma vez, com certa tristeza no olhar.

    − Pois é – limitou-se a dizer.

  • O louco no espelho

    “O louco no espelho” desvela, através de narrativas curtas, o lado obscuro de atletas e artistas que fizeram história ao redor do mundo. Mitos que, embora aureolados pela fama, sofreram consequências advindas da sua humanidade nem sempre bela e vencedora.

    Utilizando o recurso da não-ficção criativa, o autor Lúcio Humberto Saretta resgata figuras reais, como Garrincha, Noel Rosa, Beethoven e Didi, transformando-asem personagens de uma fábula moderna e inquietante.

     

    O louco no espelho – crônicas

    Editora Bestiário

    136 pg.

    Ano de publ. 2017

    ISBN 9788598802824

    Lançamento dia 8/7 às 11 horas na A. José de Alencar, 987, Menino Deus, Porto Alegre

  • 7 viram trinta e 7

    História fragmentada em contos:

    Kathy Krauser marca estreia na Bestiário com sessão de autógrafos

    Livro “7 viram trinta e 7” conta a história de trinta e sete personagens, a partir de dezessete momentos distintos

    Luiz bateu no carro de Violeta. Madalena interviu na discussão. Eva resgatou Manuel. Thiago e Camila estavam com fome. Esses sete destinos entrelaçados em um assalto darão origem a outros trinta, a partir de uma trama não-linear contada em dezessete momentos distintos. Fantasia, amor e crítica social são os grandes temas que norteiam o livro, sem deixar de lado uma boa dose de humor.
    A condição estabelecida por Kathy Krauser de que cada personagem deveria estar ligado a, pelo menos, um outro, serviu como inspiração para a fotografia da capa, também produzida e clicada por ela: sete pares de sapatos diferentes pendurados em um ventilador. “Mesmo que o ventilador esteja parado, é fácil imaginar ele girando e misturando as personalidades ou mesmo as histórias representadas em cada par de sapato. É uma metáfora para o que ocorre no ‘7 viram trinta e 7’”, a autora explica.
    Além das ligações estabelecidas entre si, todos os trinta e sete personagens têm suas próprias histórias, estejam elas escritas ou apenas subentendidas. As eventuais estruturas textuais diferenciadas e amplas elipses temporais não atrapalham a descoberta dessas tramas individuais, uma vez que os nomes dos personagens servem como guia para o leitor.
    O escritor Luiz Antonio de Assis Brasil assina a orelha do livro: “Ao ler este livro, reconhecemos de imediato uma escritora com inegável poder de imaginação, seja quando escreve sobre nosso quotidiano, seja quando se aventura no terreno em que não falta uma dose de surrealismo. Seus temas, entretanto, cingem-se a um elemento comum, que poderíamos situar no ser humano enquanto se relaciona com seus semelhantes. Dentro dessa perspectiva, as ligações amorosas assumem um papel maior e, nestas últimas, vige um entranhado otimismo, particularmente quando as personagens descobrem, por si mesmas, que trazem dentro de si a potencialidade de amar, e mais: a necessidade de amar. É, portanto, o amor que as redime e as impulsiona, é o amor que as constituem como entidades à busca da realização em todos os aspectos de suas vidas: o pessoal, o público, o social. Mas não se pense, apressadamente, que são textos sombrios e dramáticos; ao contrário, perpassa em quase todos, o sentido de humor de que tanto precisamos.”
    Sobre a autora, o escritor diz: “Por razões profissionais tenho contato com a gênese da Kathy Krauser como autora, e posso testemunhar seu algo grau de empenho. Seus passos têm sido gigantes. Eis aí um exemplo de como devemos nos comportar perante a Literatura; não se trata de uma questão de humildade e, sim, de sabedoria, que pode servir de espelho a muitos escritores que julgam ter nascidos prontos para publicarem. Desejo à Kathy uma carreira exitosa, e para isso não lhe faltam os atributos para tanto. O primeiro passo está dado.”
    Na contracapa, Kathy Krauser resume a obra:
    “Reféns da imaginação, da incompreensão, da ingenuidade e da esperteza das crianças. Das coincidências, dos acidentes, das injustiças e da rotina.
    Reféns do amor, do ciúmes e da falta de comunicação. Dos traumas, do ódio e da loucura.
    Reféns do trabalho exacerbado e do culto à perfeição. Dos sonhos mirabolantes da humanidade, das invenções tecnológicas e da falta de privacidade.
    Reféns de uma planta e da efemeridade da vida.
    São trinta e sete personagens como nós. Incansáveis sonhadores. Curiosos inventores. Gentis destruidores. Corajosos apaixonados. Imprevisíveis covardes. Irrefreáveis loucos. Seres humanos sem noção. Quem não é um pouco?”

    “7 viram trinta e 7”, livro de estreia de Kathy Krauser, será lançado pela Bestiário no dia 30 de junho de 2017 (sexta-feira), das 18h às 22h, na parte superior do Espaço Cultural da ESPM-Sul, em Porto Alegre.

    Sobre a autora
    Quando aprendeu a ler, Kathy Krauser proferiu em casa que estava em um novo mundo. Desde então, almejou ser escritora. Contar histórias sempre foi a grande paixão da sua vida seja escrevendo, interpretando, cantando, fazendo locuções ou dublando. Formada em Publicidade e Propaganda pela ESPM-Sul, a carioca de 25 anos com sotaque extinto e substituído pelo “bah” e pelo “tri” porto-alegrenses há 18 anos, ganhou os Prêmios Regional e Nacional EXPOCOM na categoria Fotografia Artística no ano de 2015. Além disso, no mesmo ano, integrou a 30ª turma da Oficina de Criação Literária ministrada pelo escritor Luiz Antonio de Assis Brasil na PUCRS, a 1ª turma do curso “A Construção do Romance” na Via Cultura também ministrada pelo escritor e pretende seguir seu sonho que sempre foi a carreira literária. Em 2016, pela Editora Bestiário, publicou o conto “Nuances” na antologia “Onisciente Contemporâneo” com os dezessete colegas de oficina. Também em 2016, participou do painel “Oniscientes contemporâneos: da oficina ao livro” no 6º Festival do Conto em Florianópolis. É uma das autoras colaboradoras do site “A Boa Prosa” tendo como foco a literatura infantojuvenil e juvenil. Mantém uma página no Facebook, assim como um canal no Youtube, nos quais expõe seus últimos trabalhos. Nesse momento, atua como Rony Weasley no musical A Very Potter Musical Brasil; possui um projeto musical de covers semanais; e está escrevendo uma trilogia juvenil distópica, cujo primeiro livro está sendo revisado, além de uma série juvenil de fantasia com mitologia original desenvolvida exclusivamente para a narrativa.

    Serviço
    Sessão de autógrafos do livro “7 viram trinta e 7”, de Kathy Krauser.


    Quando: Dia 30 de junho, das 18h às 22h.
    Onde: Parte superior do Espaço Cultural ESPM-Sul (Rua Guilherme Schell, 350, Porto Alegre/RS).
    O livro estará à venda no local por R$ 35,00.

    “7 viram trinta e 7” 
    Ed. Bestiário
    Texto e fotografia
    : Kathy Krauser 
    ISBN: 978-85-98802-81-7
    Preço de capa: R$ 35,00
    Páginas: 208 pp.
    Tamanho: 14cm X 21cm
  • Clássicos da minha estante

    Quem lê bem, escreve bem. Hoje a autora Fátima Parodia nos conta sobre os livros clássicos de sua estante.

     

    “Tive a sorte de crescer num ambiente de muita leitura, meus pais eram leitores vorazes, e como consequência, meus irmãos e eu também líamos muito. Houve uma época que meu pai era vendedor de livros, principalmente de enciclopédias e dicionários. Nós tínhamos uma brincadeira: nos sabatinávamos numa espécie de competição, a gente pegava o dicionário, abria numa página e escolhia uma palavra para que o outro dissesse o significado.

    Meu primeiro clássico era o livro favorito da minha mãe:

     

    O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas

    Creio que eu tinha cerca de 12 anos quando li este livro, foi uma chicotada nos conceitos de justiça que eu começava a formar. Vi Edmund Dantès, após ser traído e encarcerado, perder a inocência da forma mais dolorida possível, e se tornar um sujeito por vezes cruel, obcecado por vingança. Era muito cedo pra que eu entendesse todos os matizes das relações humanas, mas uma lição acabei aprendendo, que o sentimento de vingança nos nivela por baixo.

     O morro dos ventos uivantes, de Emily Brontë

    Este livro também veio por intermédio da minha mãe. Outro tratado sobre vingança, o que faz parecer que mamãe era uma pessoa vingativa, mas não, ela gostava de mocinhos sofredores e suas reviravoltas. Heathcliff e Catherine me ensinaram que os fins não justificam os meios.

    A casa da paixão, de Nélida Piñon

    O texto metafórico desse romance me fez querer ser Nélida Piñon. Não consegui, é claro, mas posso dizer que Nélida Piñon atravessou a vida comigo, estará sempre entre meus afetos. Quando li A casa da paixão eu estava entrando na fase adulta, fui sacudida pelo seu texto cheio de silêncios, de imagens, de poesia.

    Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Márquez

    Gabo me deixou em surto com seu realismo mágico. A solidão como estado de espírito dos seus personagens me representou muito bem. Na época, eu, uma jovenzinha meio estranha, tímida, arisca, achei que era uma Buendía (sem o rabo de porco). Já reli tantas vezes que acabei decorando alguns trechos. Gabo me mostrou um outro jeito de ver e fazer literatura. Pra mim, é uma espécie de Bíblia.

    Barragem contra o Pacífico, de Marguerite Duras

    É um livro icônico pra mim. Comprei-o em um sebo bem numa época em que estava tentando erguer minhas barragens contra o aguaceiro que ameaçava levar tudo por diante. Este livro me ensinou a resistir, ensinou que a persistência às vezes pode ser burra, mas também pode ser a viga mestra que nos mantém em pé.

    Bagagem, de Adélia Prado

    Eu era bem jovem quando uma pessoa querida me presenteou com este livro, então, tomei contato com a poesia de Adélia Prado. Foi um arrebatamento. Essa moça Adélia me traduziu, me refletiu, falou de coisas que vão correr em minhas veias para todo o sempre, amém.

    A elegância do ouriço, de Muriel Barbery

    Por obra do acaso descobri Muriel Barbery, não faz muito tempo. O mérito foi ter descoberto sozinha uma autora que nos vira do avesso ao escrever sobre universos internos. Já reli com a mesma emoção da primeira vez, e de novo, fiquei toda pra fora, sem ar, com uma vontade danada de me acabar no choro. Não de tristeza, mas de encantamento. Águas de certeza: a literatura enleva.

    A lua vem da Ásia, de Campos de Carvalho

    Um quase desconhecido autor brasileiro, o que considero uma injustiça com o seu talento. Quando li este livro comecei a desconfiar da minha própria lucidez. Na minha opinião, para a literatura brasileira este é um livro emblemático. Na época do seu lançamento, Campos de Carvalho foi duramente criticado por outros escritores, levou trinta anos para ser “descoberto”. O que me faz pensar que escrever é mesmo para os fortes.

    O tempo e o vento, de Érico Veríssimo

    Digamos que beira a redundância um gaúcho dizer que leu o Tempo e o Vento. É leitura obrigatória nas escolas (pelo menos antigamente), além de retratar os costumes gaúchos (alguns nem existem mais), fala também das nossas guerras, não só as políticas, mas daquelas travadas dentro de cada um.

    Cães da província, de Luiz Antônio de Assis Brasil

    Quem resiste à loucura de Qorpo Santo?  Eu não. Já estava na faculdade quando um colega me emprestou este livro. Não fossem as conversas de Qorpo Santo com pessoas inexistentes, eu diria que ele não era um louco, mas alguém com um sério compromisso consigo mesmo. Talvez por isto, eu também banquei a doida, e nunca devolvi o livro, tá amareladinho pelo tempo, seboso, e de vez em quando, fala comigo.

    Bônus:  Quiçá, de Luisa Geisler

    Descobri esta garota fantástica porque acompanho o Prêmio SESC de literatura e sempre que possível compro os livros dos vencedores. Gosto da literatura que os jovens estão fazendo. É inspiradora.  Arthur e Clarissa são personagens afundados nas suas próprias vidas, solitários na multidão, por assim dizer, acabam se escorando um no outro como alternativa para emergir. Isto, é claro, me fez refletir sobre quantas vidas de literatura andam por aí e a gente não vê. Mas como disse Nietzsche: temos a arte para que a verdade não nos destrua.

     

    Fátima Parodia é autora do livro é tudo noite (contos – Ed. Bestiário – 2016).

     

  • Clássicos da minha estante

    Pedimos ao escritor Tiago Germano uma lista de obras que valeram como clássicos na sua formação como leitor. O resultado foi o texto primoroso que segue:

     

    1. Éramos Seis, de Maria José Dupré

    Comecei a ler ficção aos doze anos. Minha mãe fazia o curso de Letras à noite e me deixava em casa cuidando dos meus dois irmãos mais novos. Não tínhamos o hábito da leitura e geralmente passávamos o tempo livre brigando pelo controle remoto – eles querendo ver os desenhos da TV Cultura e eu uma novela do SBT que, talvez por tratar de uma família com irmãos mais ou menos da nossa idade, tinha me chamado atenção: “Éramos Seis”. Um dia, minha mãe me disse que aquela novela tinha sido baseada num livro. O romance da coleção vagalume chegou às minhas mãos na mesma noite, emprestado da biblioteca da faculdade. Paramos de brigar pelo controle remoto porque agora, sempre que eu perdia um capítulo, eu podia ver o que acontecia nas páginas do livro. Quando a novela terminou e perdi o interesse pela leitura, minha mãe achou uma outra maneira de me convencer a ler: a cada livro da biblioteca que eu terminasse, ela me traria um salgadinho específico da cantina da faculdade. Achei o trato justo. Passei a devorar os livros para devorar os salgadinhos. Li quase toda a biblioteca de ficção do curso de Letras daquela faculdade e me tornei um adolescente bastante rechonchudo e ensimesmado. Apesar disso, sempre que me lembro dessa época, sinto uma ternura especial pela minha mãe e pelo livro da Maria José Dupré, meu primeiro e quiçá mais importante clássico.

     

    1. A Morte do Super-Homem, de Dan Jurgens

     

    Estaria sendo injusto se não incluísse os quadrinhos entre as minhas experiências de leitura: foram eles que primeiro me atraíram, muito antes dos livros. Uma das minhas grandes frustrações na infância, por exemplo, foi nunca ter podido assinar os gibis da Turma da Mônica porque o meu pai, guiado por um senso pedagógico um tanto questionável, achava que personagens como o Cascão, que não tomava banho, não eram uma influência positiva para uma criança. Quando consegui juntar meu próprio dinheiro, fui a uma banca com o intuito de comprar um almanaque do Cascão pra diminuir o trauma, mas me deparei com uma revistinha de capa preta com o símbolo do Super-Homem se desmanchando em sangue. Voltei pra casa com ela e a partir de então acompanhei todo esse arco do personagem da DC: a morte, o velório, a ressurreição, a revanche do herói contra Apocalipse. Décadas depois, voltei a ler quadrinhos pelos romances gráficos de Eisner e Spiegelman, sempre com o mesmo deslumbre pueril que tive nessa fase.

     

     

    1. Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas

     

    Li no final da adolescência, em viagens semanais que fazia me acotovelando com outros estudantes, na traseira de bandinhas lotadas que nos levavam de Campina Grande, cidade onde eu estudava, para várias outras cidades do interior da Paraíba. Cada casa de taipa na beira daquela estrada já abrigou um castelo medieval; cada cavalo galopando naquela terra já foi montado por um cavaleiro de capa e espada que enfrentaria, com coragem e bravura, os desmandos de um cardeal. Foi minha primeira leitura de fôlego, feita pelo simples prazer de ler.

     

    1. Fome, de Knut Hansum

     

    Pela filiação do autor ao nazismo, é bem possível que poucas pessoas tenham tido a oportunidade de fazer a leitura que eu fiz de Knut Hamsun quando era apenas um moleque, e achava que não tinha tempo a perder com o texto introdutório de “Fome” – que eu pensava que se lesse “F.Ome”, por causa da mancha de tinta na capa daquela edição. Tratava-se da esquecida tradução feita pelo Drummond para o Círculo do Livro, um texto que me pegou de jeito com um tipo de literatura à qual eu não estava acostumado, com personagens menos superficiais, repletos de conflitos internos. Só muito depois fui notar, um tanto constrangido, os narizes torcerem quando citava Hamsun como um dos autores essenciais para minha formação.

     

    1. Dois Irmãos, de Milton Hatoum

     

    Numa lista de leituras recomendadas para o vestibular de medicina que eu pretendia fazer, descobri que havia uma coisa chamada literatura brasileira contemporânea. Eu me deitei no piso frio de azulejos do pergolato da minha tia com aquele livro. Era hora da sesta. Só algumas horas depois eu consegui tirar os olhos daquilo e me sentir existindo debaixo do sol que ardia naquela tarde. A luz ofuscava minha visão mas quando eu fechava os olhos o desenho que eu via não era do céu, mas de um lugar que subitamente me parecia muito mais real que o lugar onde até então eu vivia. Desisti do vestibular de medicina e escolhi um outro caminho que pudesse me levar constantemente àquele lugar, o único em que acho possivel viver agora, o único em que, como diria Javier Marías, um romancista pode achar suportável viver em qualquer época: a ficção.

     

    1. Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez

     

    O clichê inevitável, num período em que a gente é aquele clichê ambulante do jovem escritor se debatendo na angústia da influência de um mestre. No meu caso, Gabo, uma influência tão castradora e acachapante que sua literatura virou tema de um mestrado que nunca consegui concluir. Tive que me afastar de sua obra até muito recentemente, perto de sua morte, quando me senti preparado para abrir de novo algum livro seu sem sentir que estava indo até lá para aprender uma linguagem que, invariavelmente, eu ia tentar imitar nas crônicas que eu escrevia. Durante esse hiato, Gabo puxou outras referências importantes, como Rulfo, que me ajudou a parar de voar com as borboletas amarelas e colocar os pés um pouco mais no chão.

     

    1. Agonia na Tumba, de Tarcísio Pereira

     

    O espanto que tive quando li “Dois Irmãos” foi o mesmo que tive quando li esse romance curto do paraibano Tarcísio Pereira. Então havia literatura sendo feita ali, muito perto de mim. Tarcísio me passou o seu livro no extinto Bar dos Artistas do Teatro Santa Rosa. Eu li o romance em uma madrugada, e perambulei no outro dia feito um morto-vivo pelos corredores do Decom, em João Pessoa. Foi a literatura de Tarcísio que me fez querer conhecer outros escritores da Paraíba. Depois dele veio Geraldo Maciel, cujo “Pequenas Criaturas” me lembrava os contos do Rulfo, e me mostrava que você não precisa de uma Macondo quando nasceu no Seridó, foi criado no Brejo e está começando a conhecer o mundo com toda essa herança.

     

    1. O Passado, de Alan Pauls

     

    Peguei  “O Passado” depois que li uma entrevista de Alan Pauls em que ele dizia que “não há experiência amorosa que não envolva a dimensão de um pesadelo”. Eu usei essa frase como uma das epígrafes do meu livro “A Mulher Faminta” (que sai ano que vem pela editora Moinhos) porque a própria ideia do romance foi roubada de Pauls. Explico. Na Flip de 2007, eu estava na plateia quando ouvi ele dizer que o título inicial de “O Passado” era “A Mulher Fantasma”, um título que era péssimo mas que traduzia perfeitamente o que representava a personagem Sofía: uma assombração que vez por outra retornava à vida de Rímini para atormentá-lo. Quando comecei a escrever o meu romance percebi que meu protagonista também era vítima de um espectro desses. Cheguei a pensar que meu livro poderia até mesmo se chamar “A Mulher Fantasma”, mas como o título era mesmo horrível achei por bem substituir a metáfora da fantasmagoria pela da fome, que agora me faz pensar em Hamsun, mas na época eu associava a esse apetite que a experiência amorosa parece ter de fagocitar as coisas, de devorar a própria vida, uma experiência muito maior e mais potente que o amor.

     

    1. Mãos de Cavalo, de Daniel Galera

     

    Aqui, aquele mesmo espanto de “Dois Irmãos” e “Agonia na Tumba”, com um pequeno adicional: é muito diferente quando quem está escrevendo é alguém mais ou menos da mesma geração que você – não um avô, não um tio, mas um irmão de época. É um livro do Galera que, mais que ler, estudei, tentando aprender um pouco com sua estrutura temporal paralela, que até hoje acho muito bem realizada. É talvez o livro dele de que mais gosto e é um autor que acompanho, entre muitos escritores e escritoras de carreira mais recente que leio.

     

    1. Bonsai, de Alejandro Zambra

     

    Porque quando você passa a vida imerso em narrativas que te acompanham por dias, semanas a fio, até serem esquecidas ou raramente lembradas, você passa a nutrir um carinho especial por aquelas que te acompanham por algumas poucas horas e conseguem se tornar parte permanente de você. Em algumas dezenas de páginas, Zambra conta uma história de amor pelo amor e de amor pelas histórias, um livro que é uma aula de metanarração, com suas camadas perfeitamente podadas e sua forma sendo a metáfora perfeita desse bonsai: uma árvore que, em miniatura, tem tudo o que uma grande árvore tem.

     

    Tiago Germano é escritor e jornalista. Seu livro de crônicas “Demônios Domésticos” sai neste próximo semestre pela editora Le Chien.

  • Clayton, meu pai — Arthur Telló

    Naquele verão, meu pai ligou pra minha mãe perguntando se a gente não podia largar tudo e ir morar com ele na praia. Ele tinha conseguido uma casa com um homem chamado Sérgio, um ex-alcóolatra que meu pai conheceu no A.A.. Minha mãe não pareceu convencida. Não sei, Clayton, ela disse. Não acho uma boa ideia. Eu olhava para minha mãe na esperança de entender o que ela e meu pai diziam. Ele disse, Manda um beijo para a Bárbara. Eu sei disso porque minha mãe me olhou e disse, Teu pai te manda um beijo. Eu fiquei em silêncio, encolhida, com uma sensação ruim no estômago e na garganta. Minha mãe disse, Ela te manda outro, e desligou o telefone.

    Cinco dias depois meu pai ligou de novo. Eu atendi. O que tu acha de passar as férias com a mamãe e o papai?, ele perguntou com uma voz simpática. Eu não respondi. A gente vai poder começar de novo, Bárbara, ele disse quando apareceu minha mãe e tomou o telefone da minha mão. Pronto, ela disse séria. Sim, eu pensei. Minha mãe tinha me perguntado na noite anterior o que eu achava de a gente voltar a morar com meu pai. Eu disse que não sabia. Minha mãe disse que não faria nada que eu não quisesse. Se tu acha uma má ideia, não vamos, ela disse. Eu me encolhi na cama e disse baixinho, com muito medo de dizer algo errado e ofender a minha mãe, Podemos tentar, não? Ela me olhou e não disse nada. Seu rosto endureceu, e isso me incomodou. Pelo telefone minha mãe disse que se meu pai prometesse se comportar, ela e eu iríamos até ele. Promete?, ela perguntou. Não sei o que ele disse, mas em seguida a voz da minha mãe ficou embargada e demorou para sair. Tá bem, ela disse.

    Durante o verão meus pais me levavam para a praia de manhã, a gente fazia castelos de areia e jogava frescobol. Eu usava um boné e uma camiseta da Sundown, brinde do protetor solar. Tudo cheirava à maresia e a protetor e em toda parte havia areia da praia. Minha mãe precisava varrer a casa duas vezes por dia, mas ninguém se importava com isso. Em casa a gente tomava suco, água, refri e meus pais bebiam muito café. Mal meu pai via minha mãe na sala, ele perguntava se ela queria um pouco. Sim, ela dizia, e pouco tempo depois aparecia uma xícara em suas mãos. Às terças e quintas chegava o Sérgio, um sujeito gordo, de pernas curtas, em um Jipe vermelho e levava meu pai para suas reuniões do A.A. Meu pai dizia que os dois iam para um lugar onde cuidavam para ele não beber mais. Minha mãe ficava feliz e me abraçava forte quando meu pai entrava no carro de Sérgio e ia embora com ele. Acho que fizemos uma boa escolha, ela disse uma vez, não acha? Eu disse que achava. Tu tá feliz?, ela perguntou. Sim, eu estou, eu respondi, e minha mãe me pegou nos braços e me levou para tomar sorvete de chocolate na esquina de casa. Mas, em geral a gente ficava na sala vendo TV. Só uma noite ela me levou para tomar sorvete. Eu tinha medo, mas depois de um tempo, me peguei pensando no verão. Não queria que ele acabasse. Minha mãe estava sempre contente, de bom humor, e sorrindo muito. Suas olheiras tinham sumido e ela usava maiôs e vestidos de flores que mostravam suas pernas compridas, suas formas suaves. No seu dedo voltou a brilhar a aliança. No do meu pai não, porque uma vez em que ele chegou em casa bêbado e cheirando mal, ele e minha mãe brigaram, e ele jogou a aliança dele na rua. Não preciso dessa merda, ele disse. Mas isso parecia há muito tempo. Como ela é bonita, eu pensava, ao sair do mar e ver minha mãe debaixo do guarda-sol. Meu pai olhava para ela e sorria. Eu olhava para os dois e sorria também. Meus cabelos castanho-claros eram iguais aos dela, assim como minha boca fina, enquanto meus olhos escuros eram do meu pai. Filha, olha o que eu trouxe para ti, disse meu pai depois de uma das suas reuniões do A.A.. Ele me olhava como se fosse fazer uma brincadeira enorme, impossível de imaginar. Bem diferente dos olhos vermelhos do passado, eu pensei. Seu rosto não estava inchado, mas magro, com rugas profundas em torno ao nariz de boxeador. Numa noite, ele brigou com um desconhecido no bar e voltou para casa com o nariz daquele jeito. Eu nem lembrava mais como era o nariz dele antes disso. Ele disse para eu fechar os olhos. Eu fechei e quando ele disse, Abre, eu vi um pequeno chapéu de palha na minha frente. Pus o chapéu e perguntei pra minha mãe, Estou bonita? Estou bonita, mãe? Ela disse que eu estava linda, aproximou-se do meu pai e os dois se beijaram.

    Acontece que o Sérgio deixava a gente ficar na casa dele por quase nada. Minha mãe não precisava trabalhar, e meu pai de vez em quando podava o jardim de algum vizinho. Fora isso, todo o tempo dele era para nós. Um dia meu pai estava trabalhando no jardim, quando chegou Sérgio no seu Jipe. Ele parou em frente à porta da garagem, saiu de lá, ajeitou a barriga enorme e pôs a mão no ombro do meu pai. Minha mãe e eu, a gente estava lavando louça e se surpreendeu com aquilo. Era sábado. Impossível ouvir qualquer coisa, mas eu percebi como o rosto do meu pai foi se fechando, e o nariz o deixava com uma expressão agressiva, como um cachorro com medo. Primeiro meu pai ficou pálido e depois duro. Ele olhava para o chão e não lembro de ele ter olhado para o rosto de Sérgio. Não sei por que, mas isso me machucou. Alguma coisa estava errada. Minha mãe foi até a porta e quando eu perguntei o que estava acontecendo, ela me mandou ficar quieta. Então o Sérgio cumprimentou meu pai, deu um tapinha no seu ombro, entrou no carro e foi embora. Meu pai entrou em casa e sentou no sofá, sem dizer nada.

    Clayton, o que foi?, quis saber minha mãe.

    Meu pai não olhou para ela, mas para mim. Não disse nada.

    É verdade?, minha mãe perguntou.

    O rosto do meu pai estava diferente. Ao lado dos olhos escuros, pequenas rugas apareceram. Ele parecia mais velho do que era.

    Clayton, me responde.

    Ah, cala a boca, meu pai disse, se levantando do sofá e caminhando até a cozinha. Eu e minha mãe nos olhamos e ouvimos ele servir o café.

    Quando ele voltou para a sala, minha mãe pediu que ele explicasse o que aconteceu.

    O filho da puta do Sérgio quer a casa de volta, meu pai disse. Ele sentou de novo no sofá e disse que a filha do Sérgio, a Amanda, uma mulher tão gorda como ele, que meu pai antes chamava de Baranga nos seus tempos de bebedeira, perdeu o marido. Meu pai disse, O cara viu o inferno em que tava metido, pegou o carro e deu no pé. Eu não culpo o cara, mas agora o Sérgio nos f…(e meu pai olhou para mim)..errou.

    Calma, minha mãe disse. Não vamos nos estressar.

    Ela quer que eu não me estresse, meu pai disse, ríspido. Ele já não olhava para mim nem para minha mãe. Fiquei tensa, os nervos à flor da pele.

    Nós vamos dar um jeito, minha mãe disse, sem convicção.

    Como?, ele perguntou. A gente tá fodido.

    Minha mãe disse para ele não falar assim, que eu podia ouvir.

    Meu pai ficou calado, tomou um gole de café e não falou nada.

    A mãe foi até a cozinha e perguntou se eu queria suco. Ela abriu a geladeira, a geladeira de Sérgio, eu pensei, branca, velha e encardida, e tirou de lá uma jarra de plástico transparente cheia de suco de laranja. A jarra era do Sérgio, assim como o copo de requeijão com que minha mãe me serviu, a xícara que depois ela encheu de café, o sofá onde meu pai estava sentado, e as janelas por onde eu olhava. Eu começava a compreender. Pelas janelas entrava um vento que trazia o cheiro do mar e, por trás delas, eu via um céu azul coberto de nuvens escuras, com cor de sujeira. Vai chover, eu pensei.

    Sentada ao lado do meu pai, minha mãe disse com uma voz doce que aquele tinha sido um bom verão. Ela disse, Fico feliz de tu ter encontrado essa casa e nos dado esse tempo. Ela disse que a gente pareceu uma família.

    As palavras da minha mãe, todas no passado, me deram mal-estar. Olhando pela janela e escutando suas vozes, era como se meus pais falassem de algo que tinha acontecido há muito tempo. Algo que tinha acabado. Eu desejei que aquela tensão terminasse de vez. Ali dentro, eu me sentia mal e sufocada.

    Meu pai então riu e disse, Aquele filho da puta nos fodeu direitinho. Ele sorriu para minha mãe e fechou os olhos. Por trás do nariz torto e do rosto magro, ele estava pensando. Minha mãe disse para ele pensar com calma e não fazer nenhuma bobagem. A gente ainda pode consertar tudo, ela disse.

    Como?, meu pai perguntou. Essa casa foi boa pra nós até agora, ele disse e depois continuou num tom mais baixo para eu não ouvir, Mas onde vamos encontrar outra? E como vamos pagar? Melhor esquecer isso e ir embora. Os dois ficaram em silêncio. Então meu pai disse, Obrigado por ter vindo, eu não vou esquecer.

    Minha mãe disse que estava feliz por ter vindo. Foi bom ter tido esse tempo pra gente, ela disse. E ouvir isso me machucou. Eles esqueceram de mim, eu pensei. Com o rabo do olho, eu podia ver como os dois estavam lado a lado no sofá, olhando para o chão.

    Por fim meu pai levantou, deu uma beliscada na minha bochecha, fechou as janelas e cerrou as cortinas, cortando o céu, as nuvens e o cheiro de mar. Ele me perguntou se eu não gostaria de dar mais uma volta na praia.

    Olhei para minha mãe, e ela não disse nada. Ela continuava a olhar para o chão. Nem ela nem eu sabíamos o que iria acontecer depois. Meu pai sabia. Somente ele sabia. Ele me pegou pela mão, eu senti sua palma suada, e, quando a gente quase saía da casa, minha mãe disse, Vocês podem ir. Eu vou pegar o resto de comida na geladeira e fazer o jantar. É pouca coisa.