• Parque del plata

    A cabana é construída por troncos de madeira caiada, rústica, com apenas
    uma porta pintada em ocre e cheira à maresia e saudade. Aqui não correm
    fios de energia, mas sim teias de aranhas. A iluminação, à noite, é
    feita através da luz difusa proveniente de lampiões abastecidos
    regularmente com querosene. Sentada em toras empilhadas num simulacro de
    banco, Marina mistura-se ao silêncio da varanda. Olhar fixo nas lajotas
    vermelhas do chão, sem vê-las. Tem o verde dos olhos realçado pelo
    branco rajado também de vermelho, e a pele do rosto, normalmente

    relaxada, suave, agora tensionada. O choro incontido escorre e conta sua
    história em pequenos lagos junto aos seus pés. O vento invernal lhe
    fustiga o rosto e carrega consigo a lembrança de que Rita não é mais sua
    namorada. Rita perdeu a vida ao ser colhida de surpresa pela F-1000 que
    não freou. Rita deixou de ser.

    A vida provinciana jamais aceitou que o amor fugisse do padrão. Apesar
    da discrição de ambas, todos sabiam do carinho que nutriam uma pela
    outra. Inicialmente, à boca pequena, muxoxos foram crescendo,
    tornaram-se falatório e chegaram aos ouvidos dos pais de Ritinha, menina
    bonita, cobiçada pelos rapazes do município praiano. Conversa séria e
    ameaças não a demoveram do amor dedicado à Marina. Ritinha enojava-se
    diante da agressividade dos homens, e encantara-se pela promessa de amor
    pacífico que sua amiga propunha. Em segredo, temia a sensação de adagas
    no ventre, como descrito por Veríssimo no livro lido por obrigação escolar.

    O que era para ter sido apenas mais uma tarde de passeio com Perro,
    tornara-se o dia mais bonito da vida de Marina. O cão volátil escapara
    com facilidade da guia e corria entre as dunas, saltando feito lebre num
    jogo de acha e esconde. Logo após subir um cômoro mais alto, sumiu. Ela
    preocupou-se ao ouvir um grito agudo, e como um raio alcançou a origem
    do chamado. Perro dançava em duas patas, à volta de uma menina um pouco
    maior que ela em altura, mais esguia, trajando um vestido jardineira em
    xadrez vermelho. Pediu desculpas segurando o cachorro e recebeu um
    sorriso alvo como resposta, sinal de que estava tudo bem.
    Tornaram-se amigas imediatamente. Rita contou-lhe sobre a vinda abrupta
    dos pais para o Uruguai e como havia sido afetada pela mudança de Porto
    Alegre, capital, para aquele buraco. A sensação de deslocamento, a falta
    que faziam as gurias do colégio. Marina não se ofendia com as colocações
    de Rita. Conhecia as limitações de sua cidade natal e tinha ciência de
    que as palavras vertidas pela boca de Rita eram doces ou, ao menos,
    imaginava.

    Machuccas não planejara ir até a casa de Ritinha naquela tarde. A
    caminhonete do pai estava pronta na oficina e sua obrigação, buscá-la.
    Aproveitando o caminho oportuno, rumou em direção à residência dos
    Amaral, na esperança de cativar aquela brasileira que tanto espicaçava
    seu coração com recusas e bloqueios. A casa parecia deserta, fechada, e
    quando, quase ao sair, ouviu um gemido baixo, deixou de lado qualquer

    pudor e aproximou-se da janela do quarto da amada. A veneziana
    entreaberta permitia que um facho de luz fino, iluminasse o corpo nu de
    Ritinha, arrepiada de frio e prazer proporcionado por Marina. Machuccas
    sentiu o latejar da cabeça malhando boatos em verdade. Fora rejeitado em
    favor de Marina. Com ódio nos punhos, socou o vidro da janela,
    quebrando-o, esquecendo ali algumas gotas tristes de sangue.

    Marina ouve o quebrar das ondas, levanta-se e caminha em direção à
    praia. A porta com o amarelo descascado permanece fechada. Ela não sente
    o primeiro passo dentro da maré. Suas pernas estão encharcadas ao dar-se
    conta do destino que seu luto escolheu. Num átimo, suas lágrimas
    perdem-se no mar de sal.

    Lobo

     

    Foto: Milena Reckziegel

  • Making off conversa com a multitalentosa Kathy Krauser

    Passei a tarde de domingo conversando com Kathy Krauser.  Falamos sobre o super sucesso do musical “A very Potter musical Brasil”, a experiência da autora como cantora, bailarina, dubladora e (é claro) sobre literatura.

    Um pouquinho da nossa tarde super divertida, aqui na boa prosa

    “veja bem, eu acho muito precipitado afirmar que Capitu traiu Bentinho”

     Kathy Krauser contou sobre sua primeira experiência como autora, aos 5 anos. Sim, aos 5 anos, a então garotinha escreveu, ilustrou, imprimiu e vendeu “Uma aventura no bosque”, sucesso total na escola e entre tios e primos da família.

      Em junho passado, a autora publicou seu segundo livro “7 viram 37”, pela Editora Bestiário.

      Voltada para o público infantil e adolescente, a obra é composta de diversos contos que se conectam entre si. Os personagens são amigos, namorados, ex namorados, pais, mães, o que confere uma unidade muito bacana. Na última página, Kathy teve o cuidado de incluir um esquema onde mostra as relações entre todos os personagens do livro. Não há como se perder.

    Kathy e seus dois filhinhos.

     

    Kathy Krauser também canta (e muito bem, uh la lááááá´). Infelizmente não teve um ao vivo, mas temos um vídeo só para mostrar um pouquinho da voz incrível da guria:

     

    Uma declaração de amor conjunta à literatura, essa paixão que nos une:

     

     

    Logo mais, a entrevista completa aqui e no canal da boa prosa.

    beijinhos

     

     

  • Fragilidade d’um ser humano

     

    por Caroline Fortunato

     

    Tomás, um brasileiro que não aparenta quarenta anos, moreno, forte e baixo, passa as férias no Egito.

    Junta-se a um grupo de turistas que exploram o museu. Interessados e muito curiosos, pedem ao guia que lhes mostre e explique tudo, não deixando escapar nada.

    O guia, assim, passa a gostar daquela turma de estrangeiros específica e atende o pedido com prazer.

    Leva o grupo, inclusive, por um corredor pouco visitado, já que é muito complexo. Explica que as salas que o corredor dá acesso são extremamente compensatórias do ponto de vista cultural.

    Porém, além da complexidade (parece um labirinto) o corredor é surpreendentemente longo. E não há sinal para o uso de seus telefones celulares nem ali, nem depois dali.

    Toda aquela turma começa a ter, em silêncio, um sentimento de que não saberiam voltar caso estivessem sozinhos. Mas chegam ao objetivo.

    Nas primeiras salas, a sede por conhecimento presente em cada indivíduo aflora. Tomás, empolgado, olha casualmente o guia e, no entanto, nota algo estranho. Mas julga ser coisa de sua cabeça, esquece e se volta para os artefatos.

    Os turistas decidem mudar de sala. Estavam acabando a visitação, logo teriam de retornar, cada um possuía suas obrigações em um mundo burocrático e externo.

    Solicitam ao guia e percebem que há algo de muito errado.

    – Quem são vocês?

    Todos se entreolham. De início pensam que é alguma brincadeira. Uma brincadeira de muito mau gosto – além de infantil; oxalá!

    Só depois constatam que o guia, não se sabe o porquê, perdeu a memória.

     

     

    Caroline Fortunato é estudante de Letras na Usp, contista na revista Labirinto Literário, membra de antologias e escritora na editora Selo Jovens (Selo Talentos).

     

  • Kathy Krauser

    Yeap, nossa campeã de vendas também canta.

    \o/  \o/  \o/

     

  • Dissabor

    por Alessandra Barcelar

    Marcão chegou de mansinho. Raimunda gozava, então… De boa saúde. Ele se achegou, aconchegou-se e adentrou o universo da ingênua Raimunda. Via das dúvidas, ela se aninhou também e foi ficando… Ficando… Grávida de cinco meses. Abandonada, por ele e pela família, adquiriu doença de rico: depressão. Jogou-se num despenhadeiro com os juros de sua inútil vida, toda dentro de si.

    − Que investimento mais besta! – disse ao vago da hora.

    Ruminava esse pensamento enquanto sentia as dores entorpecidas por uma garrafa de cachaça. Antes de começar a beber, Raimunda leu o rótulo que estampava em letras garrafais: CAXASSA DA BOA! E com a devida exclamação… Bebeu xingando a besta que tinha escrito isso e ainda errado.

    − Vagabundo! − tergiversou. Como ela, diria a mãe.

    Passara a vida sonhando com fadas. Escrevia com todas as forças de seu coração, como dizia Magda, uma de suas leitoras. Só ela a compreendia e a incentivava. A mãe achava que o que ela fazia era coisa do diabo.

    − Onde já se viu uma pessoa de letrinhas num papel? Uma pessoa tem que ter alma. Mas, almas de papel? Só a minha filha maluca – insistia a mãe. Foi ao Padre Gonçalo confessar o pecado da filha, resoluta.

    Não tardou, o padre apontou no quartinho apertado e foi logo mandando Raimunda rezar três pai-nossos e duas ave-marias. Foi um bate-boca dos diabos, quero dizer, dos deuses.

    − Só isso, Padre? − retrucou a moça.

    − Não é lá um pecado tão grande, mas a ignorante de sua mãe me obrigou a vir lhe dar a absolvição, senão não cuida mais da limpeza da Capela. Chantagista!”

    − Mas não sou eu que tenho que lhe contar meus pecados?

    − Por quê? Tem outro maior? Assim vou perder a faxineira voluntária.

    − Estou grávida do Marcão. Ele caiu fora.

    − Sem casar?! Oh, meu Santo Pai! Multiplique tudo por mil, tanto os pai-nossos quantos as ave-marias. E cuide bem do pequeno órfão de pai.

    − Mas, se eu fosse casada, não seria um pecado maior?

    − Mais do pai, que considerou o filho um ser abandonável.

    − E se eu abortar, o pecado não será maior do que maior?

    − O que é agora?! Está querendo me confundir? Além de escrever e inventar alma de papel, como diz sua mãe, sabe interpretar melhor as escrituras do que seu confessor? Pois pode multiplicar tudo por dois mil.

    − Ora, nem Jesus faria uma multiplicação dessas. Ele só multiplicou os pães para os esfomeados e disse que a gente só devia crescer e se multiplicar. Ele não falou nada em casar.

    − Esqueceu-se de que ele multiplicou também o vinho e, justamente, numa festa de aniversário? – esticou o homem santo, titubeando, ainda sem entender aonde Raimunda querida chegar.

    − Dá licença, Padre. O senhor trocou até o evento… Era uma festa de casamento, mas ele estava se divertindo e, cá entre nós, ficar sem vinho numa hora destas! E tem mais, ele nunca mais falou sobre esse assunto de casamento. Acho que é porque sempre falta alguma coisa. Nunca ouvi ninguém elogiar uma festa, principalmente, de casamento. Ou a noiva está feia, ou a comida está ruim ou…

    − Ah, quem tem que me dar licença agora é você. Eu hein?! Louca imunda − o Padre saiu pisando duro.

    Raimunda olhava o mundo como se estivesse acima das nuvens. Criava o seu universo e nele governava absoluta. Dona Magda adorava o que ela escrevia e sempre, além de uma quantia em dinheiro, trazia roupas novas ou uma maquiagem. Era uma leitora especial. Ao descobrir que ela vendia as suas histórias a uma escritora de verdade, a desilusão foi demais. Pegou-a pelos cabelos e lhe deu dez tapas na cara. Como era justa, cinco em cada uma das faces. Isso, sim, achava que Cristo aprovaria.

    A polícia lhe deu razão e ainda indiciou Dona Magda por violação de direitos autorais. Mas o povo não perdoa. E em termos de povo, o Brasil é número um na desclassificação do seu povinho. Aliás, a maioria não sabe nem ler. Agora, além de uma louca imunda, pois inventava gente com alma de papel, era uma safada vagabunda, pois seria mãe solteira. Já fizera até um poema sobre a cumplicidade entre seu nome Raimunda e suas rimas. Nome fácil de rimar até com palavrões. Que pena que sua leitora era também uma farsa, oriunda dessa gente que feria a sua imaginação tão fecunda e que machucava sua alma, de uma honradez profunda.

    − Que licença poética é rimar em uma prosa – pensou, suspirando. Não daria a ninguém a satisfação de assistir ao seu sofrimento. Era pessoal e intransferível o seu livre-arbítrio, e que a desculpassem pela evidente redundância do escrito, mas isso também era só da sua conta.

    Então, fez o que julgava a coisa certa e voou no seu precipício. Sempre quis ser um pássaro. Morreu feliz, morreu poeta. Tudo agora era só dela: sua vida e sua morte.

     

    Alessandra Barcelar é historiadora, vive em São Paulo, onde nasceu e atua na área da Saúde. Colaborou para revistas de literatura como Amálgama, Gueto e Revistas Luso-Brasileira. Participou do laboratório de escrita criativa com Evandro Affonso Ferreira. Atualmente integra o projeto de leitores voluntários no Instituto de Infectologia Emílio Ribas e Contadores de histórias na Rede Social Senac.

  • Canino

    por Lobo

    Você lê. Deitada no sofá, o dia lá fora caminhando, inexorável. O sol mantém o ritmo programado, enquanto você lê. A luz que entra na sala me mostra que o short escolhido hoje é menor que o de ontem, tuas coxas expostas reluzem. A blusa também é preta, pequena, cavada, antevendo um calor que ainda não se confirmou. O vidro da janela, que ontem à noite esquecemos aberta, está fechado, barrando a brisa fria. Agora de manhã sonhei contigo, conosco. Corríamos, logo eu, que odeio correr, na praia. Confesso que a sensação de liberdade era inebriante. Sentia a maresia na boca, não suporto esse salgado que gruda em tudo, mas no sonho era bom. Tu sorria, ao meu lado. Um sorriso honesto, infantil. Eu sorria junto. Acordei de felicidade, existe isso? Acho que até nosso cérebro reptiliano compreende que ninguém foi feito para suportar tanta alegria. Ao levantar te encontrei deitada no sofá da sala, teus olhos percorrendo as páginas, concentrada. Tomo água, tentando livrar minha língua do mar dos sonhos, e me sento ao teu lado, à espera do primeiro carinho, do início das atenções de hoje. Ainda não passa um dia sem que eu me aproxime e sinta esse misto de admiração e ternura. Não sei dizer desde quando isso acontece, mas sei exatamente como.

    Eu bebia, muito. Não importava o lugar ou a bebida, eu tinha uma sede caótica. Comportamento que não é muito bem-visto hoje em dia. Veja bem, eu entendo as razões daqueles que torcem o nariz diante disso, mas ninguém demonstrava o menor interesse no que tinha me levado a beber. Até que acordei num banco de parque, ainda sob os efeitos de mais uma noitada, contigo me olhando. Teu olhar paralisou meu bocejo incipiente e, de boca semiaberta, vi teu passo decidido em direção ao banco. Fui obrigado a me aprumar, liberando espaço para que você sentasse. Não trocamos uma palavra. Durante alguns minutos, para mim uma eternidade, pude sentir teu perfume, mistura de sabonete e suor, característico de quem gosta de se exercitar pela manhã. Você cuidando das folhas sob o jugo do vento. Eu calado, numa mistura de medo e veneração. Até que num impulso rápido, você se levantou e disse: Vem comigo!

    Desde então vejo teu cabelo grudado nos azulejos do banheiro. E me assusto quando tu submerge metade do rosto na bacia com água fria e fica lá parada, numa posição que parece desconfortável. Ao teu lado a precariedade de tudo me parece pequena, ínfima. Pouco me importa se as geleiras estão derretendo e os oceanos subindo. Somos todos perecíveis. Que ao menos, enquanto vivos, possamos ter alguém que nos olhe, proteja, ame e confie. Uma espécie de gorilas não tem mais seu habitat? Adaptem-se ou busquem refúgio na glória da inexistência. Exceto as abelhas, gosto das abelhas. Alguém podia fazer algo em relação às abelhas.

     

    Lobo sabe que movimento é vida. Antissocial, uiva e escreve.

  • As mentiras que os escritores contam

    A autora Stéfanie Medeiros fez um vídeo super divertido onde manda um papo reto sobre as dores e delícias da vida de escritor.

     

  • Por uma vida de merda

    por Alex Xavier

    Olavo queria ser escritor, mas não havia sofrido o suficiente. Carregava uma bagagem inútil de boas lembranças e não conseguia tirar histórias geniais dali. Há alguns meses, pensou ter encontrado uma fagulha de drama inventivo ao ler uma reportagem sobre adultos com Déficit de Atenção. O artigo falava de pessoas distraídas. Esqueciam coisas bobas, deixavam vários projetos pela metade e não tinham paciência de escutar ninguém, cortando os outros no meio das frases. Achou que isso o definia e ficou aliviado. Tinha uma desculpa química para, aos 33 anos, ainda não ter assinado nem um simples conto ou um poema de rimas pobres. Recomendado por um amigo, foi atrás de ajuda psiquiátrica. Assim, esse jovem esguio e atraente criado no Leblon chegou ao meu consultório, em Laranjeiras, esperando minha confirmação do seu problema para desandar a escrever.

    Tu é apenas um pouco egocêntrico e precisa brigar contra a preguiça, sentenciei na terceira sessão, afastando de vez a ideia de receitar ritalina para o suposto TDAH. Em busca de uma razão para ser triste, Olavo ficou decepcionado. Defendeu que a angústia é essencial, estimula a criatividade. Afinal, seus autores preferidos tiveram vidas de merda, com traumas familiares, desilusões amorosas, problemas financeiros, limitações por doenças ou vícios e inúmeras crises existenciais, levando-os, invariavelmente, à autodestruição. E a inspiração surgiu dos anos miseráveis e não dos momentos de respiro.

    As pessoas costumam fazer terapia porque não conseguem ser felizes, comentei. Não é meu caso, doutora, respondeu antes de ressaltar que, no geral, não guardava frustrações, não daquelas boas que geram uma obra-prima. Tentei afirmar que, desde a infância, era improvável alguém não ter passado por momentos difíceis como todo mundo. Meus pais me davam de tudo, disse o pobre menino rico. Ganhava Mega Drive no aniversário, Lego no Dia das Crianças e Caloi no Natal. Ia de férias pra Disney no verão e pra Bariloche no inverno. Recebia mimos dos avós, das tias, dos padrinhos, da empregada. Nenhum bom escritor sai do paraíso, doutora.

    Era difícil me compadecer por seu dilema de pequeno burguês da Zona Sul. Confesso, porém, que fiquei fascinada pela ideia de alguém se agarrar aos momentos ruins em vez de tentar esquecê-los, como a maioria dos meus pacientes. Só pra provocá-lo, recorri à minha própria estante de clássicos. Goethe, por exemplo. Tinha a ver. Veio de berço de ouro, era nobre, estudou nos melhores colégios, viajou pela Europa e usufruiu do ambiente aristocrático, era um playboy. Sim, Olavo concordou, mas só fez algo que prestasse quando gamou numa mulher casada, tomou um fora e escreveu “Os Sofrimentos do Jovem Werther”. Já ele nunca havia sofrido por amor, nem uma rejeiçãozinha que fosse. Falamos um pouco da sua vida amorosa. Sempre esteve cercado de mulheres maravilhosas, algumas celebridades até. No fim, costumava se cansar delas e terminar. Naquele momento, saía com a estrela da novela das nove, com quem todos sonhavam. Na manhã daquela sessão, ela havia levado o café na cama pra Olavo vestindo apenas uma camiseta velha dele. Nunca fiquei amargurado no meu quarto socando a parede e perguntando aos céus por quê, dramatizou. Jamais escrevi cartas com peso proporcional de paixão e ódio.

    Suspirei, enquanto anotava e grifava “macho manipulador” no meu bloquinho. Resolvi apelar para os mestres da literatura com fama de grandes sedutores. Lord Byron. Ele tinha muitas mulheres em torno dele. Homens também. E inspirou gerações de poetas românticos. Só que antes da sua poesia fazer sucesso todos cagavam pra ele, cravou, com desdém. Segundo Olavo, o autor inglês era apenas um garoto coxo, envergonhado do defeito na perna, todo complexado com os tratamentos. Contou como, depois de famoso, pintores o imortalizaram bonito e perfeito porque o escritor exigia assim. Chamou-o de farsa e ainda disse que, diferente do escritor manco, não pegava nem gripe. Praticava natação e muay thai, comia bem, não fumava, enfim, ele se cuidava. Claro, não vou querer essas doenças da moda dos antigos autores, como tuberculose ou sífilis, avisou. Mas uma enxaquecazinha já resolveria. Lembrou que Cortázar desenvolveu sua obsessão pelo duplo tomando alucinógenos pra acabar com suas dores de cabeça.

    Eu nem sabia mais dizer se o rapaz disparava fatos ou boatos. Mas ficou claro que Olavo não abriria mão da associação entre sofrimento e inspiração. Tornou-se um desafio apontar suas falhas tentando romper o campo de força da soberba e provar que era tão miserável quanto qualquer um de nós. Ele havia se apropriado dessa felicidade arrogante há muito tempo, quando entrou pra televisão. Aos vinte e poucos anos, ainda no curso de Publicidade e Propaganda na PUC, já apresentava um programa de cultura pop. Era conhecidinho dos adolescentes, que curtiam sua banda de um único sucesso. Saiu sem camisa em uma revista, exibindo no peito uma tatuagem de duas pistolas Long Colt 45 cruzadas. A legenda da foto era “jovem de atitude”. E ele acreditou nisso. Agora, sócio mais novo de uma agência laureada em Cannes, ainda discotecava em festas de vez em quando, tirando o set list de um pen drive. Enquanto isso, desejava ser escritor.

    Lá pela sexta sessão, contou que faria uma série de exames de saúde. Felicitei-o, pois é sempre bom se precaver. Sua torcida, porém, era pra descobrir alguma enfermidade. Com sorte, teria uma cirrose, pois passou a virar o caneco na toada de um desses autores beberrões americanos. Brindava a Hemingway com mojitos, a Fitzgerald com gim, a Faulkner com uísque, a Kerouac com marguerita. Também tinha começado a fumar, mas sem a mesma classe de um Vargas Llosa ou de um Nelson Rodrigues com o cigarro na mão. Segurava e tragava como maconha. Não era a mesma coisa. Colocou a ideia de lado por não se lembrar de grandes obras dedicadas ao tabaco.

    Na semana seguinte, Olavo levou seu plano de decadência mais longe ao anunciar ter largado a sociedade na agência de publicidade. Pior, começou a trabalhar em um cartório. Foi o trabalho mais burocrático que encontrou. Passava o dia atendendo pessoas, tirando fotocópias e carimbando papéis. Pense nos grandes escritores brasileiros que passaram anos presos ao funcionalismo público só pela expectativa de alguma estabilidade financeira, teorizou. Primeiro, citou Machado de Assis, um carreirista, de tipógrafo a diretor do Ministério da Aviação. Foram quarenta anos que lhe renderam dezenas de personagens retratados como seus colegas de repartição. José de Alencar, Lima Barreto, Carlos Drummond de Andrade, todos teriam se abrigado à rotina do funcionalismo estatal enquanto escreviam preciosidades.

    Sessão após sessão, meu paciente parecia mais decidido a tornar sua vida um inferno. Curiosamente, ele ficava eufórico ao contar sobre cada degrau superado – no seu caso, regredido – e eu me perguntava se essa alegria não seria prova de que seu objetivo, a alma estilhaçada, estava ainda muito distante. Mesmo assim, houve uma evolução – ou retrocesso, não sei mais dizer. Após tantos exames, Olavo descobriu uma diabetes. Ou melhor, foi considerado pré-diabético, pois o índice glicêmico estava um pouco elevado, indicando uma disposição pra diabetes tipo 2. Se escrevesse uma obra-prima sobre isso seria o primeiro. Com certeza, era reflexo da mudança de hábitos. Havia largado os esportes e comia muita porcaria, chegando a ganhar peso.

    Voltei pra casa dos meus pais, lá no Leblon, revelou na décima sessão. Fiquei inconformada. Sério? Mas em que isso vai ajudar? Tu me disse que foi uma criança tão alegre. Sua justificativa era não conhecer seus velhos tão bem assim. Minhas memórias dessa época são fragmentadas, disse, quero experimentar a rotina com eles agora, com mais consciência do mundo. O jovem imaginava ter perdido muito dessa relação por causa do verniz de lar sadio. Kafka levou o fantasma do pai opressor pelo resto da vida, lembrou. E ele está lá, em “Metamorfose” e em outras obras. O cara escreveu uma carta de cem páginas reclamando do velho, exaltou. Quero esse destempero! Perguntei se seus pais concordavam com o retorno. Como eu imaginava, ficaram um pouco ressabiados. Conforme explicou, com os filhos crescidos, já estavam guardando as energias para os netos. Isso é bom, alegrou-se. Talvez eu consiga provocar algum conflito aí.

    Da namorada atriz não falava há algumas semanas. Depois, li em uma revista de fofoca no consultório do dentista que os dois já estavam noivos quando ele terminou tudo. Como ela era bem mais famosa, ninguém se importou muito com o paradeiro dele. Ia ser mesmo estranho explicar como foi expulso de casa pelos pais e acolhido por um primo no sofá da sala de um estúdio em Niterói. Na décima sétima semana, chegou saltitante ao consultório. Estou sofrendo horrores por amor, vibrou. Mas com esse sorriso largo na cara, questionei. Foi atrás da única mulher que se lembrava de já tê-lo rejeitado. Isadora, uma namoradinha de infância. Tipo um primeiro amor? Mais ou menos, explicou. Eu tinha doze anos, estudava na mesma classe, a gente dançou a noite toda na festa de uma colega e estraguei tudo quando preferi dar meu primeiro beijo em outra menina, mais velha. Isadora nunca mais quis saber dele.

    Na verdade, ele não voltou a trocar nenhuma palavra com a pobre e desprezava seus olhares melancólicos na sala de aula. Foi procurá-la e concluiu que ainda havia mágoas na menina, hoje uma estilista moderninha com sua própria marca. A princípio, ela não aceitou seu convite de amizade no Facebook. Também não adiantou descobrir onde ficava o ateliê dela em Santa Teresa e bater por lá com flores. Ela o considerou um lunático por dar as caras após tantos anos. Olavo só sossegou quando levou um soco do namorado da coitada ao tentar invadir a casa deles. Nunca me senti tão rejeitado, insistiu. Imagino que Jorge Luís Borges compreenderia o que estou passando. Foi quando perdi o compasso. Não queria deixá-lo saborear essa falsa derrota. Borges morou com a mãe castradora até os 70 anos e só se casou quando ela morreu. Antes, teve uma vida de amores platônicos e rejeições. Não é nem um pouco a mesma coisa, estabeleci.

    O caso estava fora de controle. Fiquei preocupada quando o rapaz faltou a duas sessões sem dar qualquer satisfação. Um dia, fui chamada a um hospital pra identificar um moribundo que suspeitavam ser meu paciente. Fiquei surpresa ao me deparar com Olavo, descabelado e barbudo, amarrado a um leito, dopado. Ele foi encontrado no Largo do Machado, maltrapilho, delirando e melecado com Nutella. Tudo indicava que passou dias comendo só aquilo, pois sua taxa de açúcar estava altíssima. Não levava documentos e nem sabia seu nome, apenas tinha o cartão do consultório de sua psiquiatra.

    Lady, please, help my poor soul – soltou ao me ver, remetendo sem pudor às supostas últimas palavras de Edgar Allan Poe.

    Refeito do susto e reunido à família, o pretenso escritor veio até mim uma última vez. Ao chegar, desolado, alegou ter esgotado seus esforços pra dilacerar seu âmago. Restava apenas morrer jovem. Isso também não faria dele um escritor, visto que lhe faltariam obras póstumas. Cogitou, então, o suicídio. As referências, porém, o amedrontavam. Afogado, como Virginia Woolf? Intoxicado com gás, a exemplo de Sylvia Plath? Com cianureto, seguindo Horacio Quiroga? Nunca teria coragem. Mesmo depois de todas as tentativas de se martirizar, ainda sentia o calor da brasa da felicidade e queria viver. Foi quando percebi qual era meu papel nesse tresloucado processo de autoconhecimento.

    Se ainda se sente feliz, só posso concluir que tu não tá na posse de suas faculdades mentais, decretei. Esse estado de satisfação plena com a vida, ignorando toda amargura que te cerca, pode ser classificado como um distúrbio. Pela primeira vez, deixei Olavo mudo por valiosos instantes. Quer dizer, começou reticente, que por me considerar uma pessoa feliz… eu sou… doido? Na verdade, eu nunca usaria esse termo. Mas comentei que, de Platão a Freud, a ligação entre loucura e genialidade sempre existiu. Foi uma epifania discreta, por mais que eu tenha ouvido um leve estampido. Em seguida, Olavo se deu alta, agradeceu comovido e foi pra casa. Enfim, escreveu. Nunca achei tempo de ler seu livro. As seiscentas páginas me deram preguiça. Mas fui ao lançamento um ano depois e ganhei uma edição autografada. Em seguida, isolou-se da sociedade carioca e passou o resto da vida vivendo como um camponês no norte de Minas Gerais. Nunca o procurei pra saber se a inspiração foi Salinger ou Tolstói.

  • Nina Müller


    Conversamos com Nina Müller, uma autora que se destaca na plataforma de autopublicação da Amazon no gênero de eróticos. Nina possui um grupo vasto de leitoras e fãs que a acompanham pelas redes sociais e agora lançará seu livro pela Editora Planeta.

     

    IB: Como foi o caminho que te levou até a literatura?

    NM: Eu sempre gostei da literatura. Desde a infância que escrevia histórias. Comecei escrevendo histórias em quadrinhos, depois na adolescência, escrevia pequenos contos. Quando fiz faculdade de Letras, comecei a esboçar enredos mais longos.

     

    IB: Quais os livros que tu considera definitivos na tua formação como leitora?

    NM: Os clássicos. Li muito Machado, José de Alencar, Graciliano Ramos, Clarice Lispector, Drummond. Embora hoje a literatura contemporânea em nada se assemelha com a clássica.

     

    IB: Como surgiu a ideia da autopublicação? Quais as plataformas que você usa e quais as mais rentáveis para um autor independente?

    NM: Eu conversei com alguns autores que já publicavam e que gostavam do retorno. Então decidi experimentar. Eu publico somente pela Amazon. Não conheço as outras plataformas pagas.

     

    IB: Você frequenta a lista dos e-books mais lidos da revista Veja. (Parabéns!) Como é o retorno e a interação com teus seguidores?

    NM: Obrigada! Meus leitores me dão apoio e incentivo, trocam ideias, sugerem coisas novas, até experiências de vida. Eles são o meu pilar de sustentação. Principalmente depois da morte da minha mãe, no ano passado.

     

    IB: Como você vê os fenômenos que surgem na literatura de gêneros no Brasil?  E como é a tua interação com os autores? De todos os gêneros, qual o teu favorito?

    NM: Eu acho que tem espaço para todo mundo, todos os gêneros. Tenho amizade com autores que escrevem os mais variados estilos. A gente troca ideias. É muito legal. O meu gênero favorito continua sendo o romance.

     

    IB: Quais teus planos? Tens algum livro de contos ou romance em andamento ou pronto para publicar?

    NM: Sairá pela editora Planeta de Livros do Brasil o terceiro livro da série Sentença, Prazer em julgamento. Ele está na grade da editora para o mês de agosto. A Planeta adquiriu os direitos autorais dos últimos dois livros. E o primeiro estará disponível na Bienal do Rio de Janeiro.

    IB: Qual a crítica/elogio que você ainda não recebeu, mas te deixaria muito feliz?

    NM: Não seria bem uma crítica ou um elogio, mas eu acho que o sonho de todo o autor é ver seu trabalho reconhecido no país inteiro e, porque não dizer, também em outros países.

     

    E-books mais vendidos da autora:

    Amor em julgamento (Série Sentença)

    Desejo em julgamento (Série Sentença)

    Ardente cativeiro da fênix (Duologia Fênix)

    Sublime renascer da fênix (Duologia Fênix)

     

    Links:

    https://www.amazon.com.br/Ardente-Cativeiro-F%C3%AAnix-DUOLOGIA-Edi%C3%A7%C3%A3o-ebook/dp/B00RGVPKQA/ref=sr_1_1?s=digital-text&ie=UTF8&qid=1501540797&sr=1-1&keywords=nina+m%C3%BCller

    https://www.amazon.com.br/Sublime-Renascer-F%C3%AAnix-DUOLOGIA-F%C3%8ANIX-ebook/dp/B0156PABH0/ref=sr_1_14?s=digital-text&ie=UTF8&qid=1501540853&sr=1-14&keywords=nina+m%C3%BCller

    https://www.amazon.com.br/Box-Duologia-F%C3%AAnix-Nina-M%C3%BCller-ebook/dp/B0182EVT46/ref=sr_1_13?s=digital-text&ie=UTF8&qid=1501540853&sr=1-13&keywords=nina+m%C3%BCller

    https://www.amazon.com.br/Amor-Julgamento-S%C3%A9rie-Senten%C3%A7a-Livro-ebook/dp/B00W43VPDW/ref=sr_1_2?s=digital-text&ie=UTF8&qid=1501540853&sr=1-2&keywords=nina+m%C3%BCller

    https://www.amazon.com.br/Desejo-julgamento-S%C3%A9rie-Senten%C3%A7a-Livro-ebook/dp/B01D46AKOW/ref=sr_1_5?s=digital-text&ie=UTF8&qid=1501540853&sr=1-5&keywords=nina+m%C3%BCller

    E outros:

    https://www.amazon.com.br/L%C3%A1grimas-do-cora%C3%A7%C3%A3o-Nina-M%C3%BCller-ebook/dp/B0711CMVZ1/ref=sr_1_3?s=digital-text&ie=UTF8&qid=1501540853&sr=1-3&keywords=nina+m%C3%BCller

    https://www.amazon.com.br/Sedutora-entre-prazer-Nina-M%C3%BCller-ebook/dp/B01H60ZULK/ref=sr_1_10?s=digital-text&ie=UTF8&qid=1501540853&sr=1-10&keywords=nina+m%C3%BCller

    E para quem curte contos eróticos:

    https://www.amazon.com.br/Box-contos-er%C3%B3ticos-Nina-M%C3%BCller-ebook/dp/B01MZ4EXY9/ref=sr_1_15?s=digital-text&ie=UTF8&qid=1501540853&sr=1-15&keywords=nina+m%C3%BCller

     

     

  • Flip 2017

    por Irka Barrios

     Breves relatos e recordações de minha primeira passagem pela Flip.

    O projeto de minha próxima novela (em andamento) foi selecionado para um evento chamado Pitching: vendendo sua ideia, organizado pela Amazon e Casa Santa Rita de Cássia. No grupo de 13 autores, muita gente talentosa, como Bruno Ribeiro (Brasil em Prosa, 2015 /  finalista Prêmio SESC, 2016 / finalista Prêmio Kindle, 2016), Vanessa Maranha (Prêmio OffFlip, 2012 / Prêmio Barueri e UFES, 2014 / Finalista Prêmio São Paulo de Literatura 2015) e Jeanethe Fontes Suleiman (prêmio Cecília Meirelles, 2015).

     

    É claro que a boa prosa estava lá!

    Olha ele aí, Bruno Ribeiro, meu colega de pódio do Brasil em Prosa (2015)

    Os autores aguardando a vez de defender suas histórias e personagens para um grupo bem bacana de editores. Na foto Vanessa Maranha, Vinícius Gomes Melo, M. A. Costa, David Bayer, Bruno Ribeiro e eu.

    Defendi a Lauren, personagem por quem estou apaixonada e conviverá comigo durante o próximo ano. A garota de treze anos vive numa cidade do interior do RS e é assombrada por visões após presenciar uma cena de sexo entre a mãe e o pastor de sua igreja.

    O projeto faz parte de meu mestrado em Escrita Criativa da PUC-RS.

    Bruno Ribeiro defendeu Glitter, um romance que já foi finalista de dois concursos.

     A Casa Santa Rita de Cássia foi um ambiente agradável para autores independentes. Da experiência, resultaram boas trocas e amizades com escritores que estão trabalhando duro pela literatura contemporânea.

    Quanto ao resultado, nenhuma surpresa: é impossível avaliar uma obra através de uma apresentação oral de três minutos.

    Através de uma visita relâmpago a Paraty, pude notar a diversidade das mesas e o clima interessante do lugar que, por alguns dias, mergulha fundo na literatura. Que venham novas Flips!