Parque del plata

A cabana é construída por troncos de madeira caiada, rústica, com apenas
uma porta pintada em ocre e cheira à maresia e saudade. Aqui não correm
fios de energia, mas sim teias de aranhas. A iluminação, à noite, é
feita através da luz difusa proveniente de lampiões abastecidos
regularmente com querosene. Sentada em toras empilhadas num simulacro de
banco, Marina mistura-se ao silêncio da varanda. Olhar fixo nas lajotas
vermelhas do chão, sem vê-las. Tem o verde dos olhos realçado pelo
branco rajado também de vermelho, e a pele do rosto, normalmente

relaxada, suave, agora tensionada. O choro incontido escorre e conta sua
história em pequenos lagos junto aos seus pés. O vento invernal lhe
fustiga o rosto e carrega consigo a lembrança de que Rita não é mais sua
namorada. Rita perdeu a vida ao ser colhida de surpresa pela F-1000 que
não freou. Rita deixou de ser.

A vida provinciana jamais aceitou que o amor fugisse do padrão. Apesar
da discrição de ambas, todos sabiam do carinho que nutriam uma pela
outra. Inicialmente, à boca pequena, muxoxos foram crescendo,
tornaram-se falatório e chegaram aos ouvidos dos pais de Ritinha, menina
bonita, cobiçada pelos rapazes do município praiano. Conversa séria e
ameaças não a demoveram do amor dedicado à Marina. Ritinha enojava-se
diante da agressividade dos homens, e encantara-se pela promessa de amor
pacífico que sua amiga propunha. Em segredo, temia a sensação de adagas
no ventre, como descrito por Veríssimo no livro lido por obrigação escolar.

O que era para ter sido apenas mais uma tarde de passeio com Perro,
tornara-se o dia mais bonito da vida de Marina. O cão volátil escapara
com facilidade da guia e corria entre as dunas, saltando feito lebre num
jogo de acha e esconde. Logo após subir um cômoro mais alto, sumiu. Ela
preocupou-se ao ouvir um grito agudo, e como um raio alcançou a origem
do chamado. Perro dançava em duas patas, à volta de uma menina um pouco
maior que ela em altura, mais esguia, trajando um vestido jardineira em
xadrez vermelho. Pediu desculpas segurando o cachorro e recebeu um
sorriso alvo como resposta, sinal de que estava tudo bem.
Tornaram-se amigas imediatamente. Rita contou-lhe sobre a vinda abrupta
dos pais para o Uruguai e como havia sido afetada pela mudança de Porto
Alegre, capital, para aquele buraco. A sensação de deslocamento, a falta
que faziam as gurias do colégio. Marina não se ofendia com as colocações
de Rita. Conhecia as limitações de sua cidade natal e tinha ciência de
que as palavras vertidas pela boca de Rita eram doces ou, ao menos,
imaginava.

Machuccas não planejara ir até a casa de Ritinha naquela tarde. A
caminhonete do pai estava pronta na oficina e sua obrigação, buscá-la.
Aproveitando o caminho oportuno, rumou em direção à residência dos
Amaral, na esperança de cativar aquela brasileira que tanto espicaçava
seu coração com recusas e bloqueios. A casa parecia deserta, fechada, e
quando, quase ao sair, ouviu um gemido baixo, deixou de lado qualquer

pudor e aproximou-se da janela do quarto da amada. A veneziana
entreaberta permitia que um facho de luz fino, iluminasse o corpo nu de
Ritinha, arrepiada de frio e prazer proporcionado por Marina. Machuccas
sentiu o latejar da cabeça malhando boatos em verdade. Fora rejeitado em
favor de Marina. Com ódio nos punhos, socou o vidro da janela,
quebrando-o, esquecendo ali algumas gotas tristes de sangue.

Marina ouve o quebrar das ondas, levanta-se e caminha em direção à
praia. A porta com o amarelo descascado permanece fechada. Ela não sente
o primeiro passo dentro da maré. Suas pernas estão encharcadas ao dar-se
conta do destino que seu luto escolheu. Num átimo, suas lágrimas
perdem-se no mar de sal.

Lobo

 

Foto: Milena Reckziegel

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