por Lobo

Você lê. Deitada no sofá, o dia lá fora caminhando, inexorável. O sol mantém o ritmo programado, enquanto você lê. A luz que entra na sala me mostra que o short escolhido hoje é menor que o de ontem, tuas coxas expostas reluzem. A blusa também é preta, pequena, cavada, antevendo um calor que ainda não se confirmou. O vidro da janela, que ontem à noite esquecemos aberta, está fechado, barrando a brisa fria. Agora de manhã sonhei contigo, conosco. Corríamos, logo eu, que odeio correr, na praia. Confesso que a sensação de liberdade era inebriante. Sentia a maresia na boca, não suporto esse salgado que gruda em tudo, mas no sonho era bom. Tu sorria, ao meu lado. Um sorriso honesto, infantil. Eu sorria junto. Acordei de felicidade, existe isso? Acho que até nosso cérebro reptiliano compreende que ninguém foi feito para suportar tanta alegria. Ao levantar te encontrei deitada no sofá da sala, teus olhos percorrendo as páginas, concentrada. Tomo água, tentando livrar minha língua do mar dos sonhos, e me sento ao teu lado, à espera do primeiro carinho, do início das atenções de hoje. Ainda não passa um dia sem que eu me aproxime e sinta esse misto de admiração e ternura. Não sei dizer desde quando isso acontece, mas sei exatamente como.

Eu bebia, muito. Não importava o lugar ou a bebida, eu tinha uma sede caótica. Comportamento que não é muito bem-visto hoje em dia. Veja bem, eu entendo as razões daqueles que torcem o nariz diante disso, mas ninguém demonstrava o menor interesse no que tinha me levado a beber. Até que acordei num banco de parque, ainda sob os efeitos de mais uma noitada, contigo me olhando. Teu olhar paralisou meu bocejo incipiente e, de boca semiaberta, vi teu passo decidido em direção ao banco. Fui obrigado a me aprumar, liberando espaço para que você sentasse. Não trocamos uma palavra. Durante alguns minutos, para mim uma eternidade, pude sentir teu perfume, mistura de sabonete e suor, característico de quem gosta de se exercitar pela manhã. Você cuidando das folhas sob o jugo do vento. Eu calado, numa mistura de medo e veneração. Até que num impulso rápido, você se levantou e disse: Vem comigo!

Desde então vejo teu cabelo grudado nos azulejos do banheiro. E me assusto quando tu submerge metade do rosto na bacia com água fria e fica lá parada, numa posição que parece desconfortável. Ao teu lado a precariedade de tudo me parece pequena, ínfima. Pouco me importa se as geleiras estão derretendo e os oceanos subindo. Somos todos perecíveis. Que ao menos, enquanto vivos, possamos ter alguém que nos olhe, proteja, ame e confie. Uma espécie de gorilas não tem mais seu habitat? Adaptem-se ou busquem refúgio na glória da inexistência. Exceto as abelhas, gosto das abelhas. Alguém podia fazer algo em relação às abelhas.

 

Lobo sabe que movimento é vida. Antissocial, uiva e escreve.

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