Por uma vida de merda

por Alex Xavier

Olavo queria ser escritor, mas não havia sofrido o suficiente. Carregava uma bagagem inútil de boas lembranças e não conseguia tirar histórias geniais dali. Há alguns meses, pensou ter encontrado uma fagulha de drama inventivo ao ler uma reportagem sobre adultos com Déficit de Atenção. O artigo falava de pessoas distraídas. Esqueciam coisas bobas, deixavam vários projetos pela metade e não tinham paciência de escutar ninguém, cortando os outros no meio das frases. Achou que isso o definia e ficou aliviado. Tinha uma desculpa química para, aos 33 anos, ainda não ter assinado nem um simples conto ou um poema de rimas pobres. Recomendado por um amigo, foi atrás de ajuda psiquiátrica. Assim, esse jovem esguio e atraente criado no Leblon chegou ao meu consultório, em Laranjeiras, esperando minha confirmação do seu problema para desandar a escrever.

Tu é apenas um pouco egocêntrico e precisa brigar contra a preguiça, sentenciei na terceira sessão, afastando de vez a ideia de receitar ritalina para o suposto TDAH. Em busca de uma razão para ser triste, Olavo ficou decepcionado. Defendeu que a angústia é essencial, estimula a criatividade. Afinal, seus autores preferidos tiveram vidas de merda, com traumas familiares, desilusões amorosas, problemas financeiros, limitações por doenças ou vícios e inúmeras crises existenciais, levando-os, invariavelmente, à autodestruição. E a inspiração surgiu dos anos miseráveis e não dos momentos de respiro.

As pessoas costumam fazer terapia porque não conseguem ser felizes, comentei. Não é meu caso, doutora, respondeu antes de ressaltar que, no geral, não guardava frustrações, não daquelas boas que geram uma obra-prima. Tentei afirmar que, desde a infância, era improvável alguém não ter passado por momentos difíceis como todo mundo. Meus pais me davam de tudo, disse o pobre menino rico. Ganhava Mega Drive no aniversário, Lego no Dia das Crianças e Caloi no Natal. Ia de férias pra Disney no verão e pra Bariloche no inverno. Recebia mimos dos avós, das tias, dos padrinhos, da empregada. Nenhum bom escritor sai do paraíso, doutora.

Era difícil me compadecer por seu dilema de pequeno burguês da Zona Sul. Confesso, porém, que fiquei fascinada pela ideia de alguém se agarrar aos momentos ruins em vez de tentar esquecê-los, como a maioria dos meus pacientes. Só pra provocá-lo, recorri à minha própria estante de clássicos. Goethe, por exemplo. Tinha a ver. Veio de berço de ouro, era nobre, estudou nos melhores colégios, viajou pela Europa e usufruiu do ambiente aristocrático, era um playboy. Sim, Olavo concordou, mas só fez algo que prestasse quando gamou numa mulher casada, tomou um fora e escreveu “Os Sofrimentos do Jovem Werther”. Já ele nunca havia sofrido por amor, nem uma rejeiçãozinha que fosse. Falamos um pouco da sua vida amorosa. Sempre esteve cercado de mulheres maravilhosas, algumas celebridades até. No fim, costumava se cansar delas e terminar. Naquele momento, saía com a estrela da novela das nove, com quem todos sonhavam. Na manhã daquela sessão, ela havia levado o café na cama pra Olavo vestindo apenas uma camiseta velha dele. Nunca fiquei amargurado no meu quarto socando a parede e perguntando aos céus por quê, dramatizou. Jamais escrevi cartas com peso proporcional de paixão e ódio.

Suspirei, enquanto anotava e grifava “macho manipulador” no meu bloquinho. Resolvi apelar para os mestres da literatura com fama de grandes sedutores. Lord Byron. Ele tinha muitas mulheres em torno dele. Homens também. E inspirou gerações de poetas românticos. Só que antes da sua poesia fazer sucesso todos cagavam pra ele, cravou, com desdém. Segundo Olavo, o autor inglês era apenas um garoto coxo, envergonhado do defeito na perna, todo complexado com os tratamentos. Contou como, depois de famoso, pintores o imortalizaram bonito e perfeito porque o escritor exigia assim. Chamou-o de farsa e ainda disse que, diferente do escritor manco, não pegava nem gripe. Praticava natação e muay thai, comia bem, não fumava, enfim, ele se cuidava. Claro, não vou querer essas doenças da moda dos antigos autores, como tuberculose ou sífilis, avisou. Mas uma enxaquecazinha já resolveria. Lembrou que Cortázar desenvolveu sua obsessão pelo duplo tomando alucinógenos pra acabar com suas dores de cabeça.

Eu nem sabia mais dizer se o rapaz disparava fatos ou boatos. Mas ficou claro que Olavo não abriria mão da associação entre sofrimento e inspiração. Tornou-se um desafio apontar suas falhas tentando romper o campo de força da soberba e provar que era tão miserável quanto qualquer um de nós. Ele havia se apropriado dessa felicidade arrogante há muito tempo, quando entrou pra televisão. Aos vinte e poucos anos, ainda no curso de Publicidade e Propaganda na PUC, já apresentava um programa de cultura pop. Era conhecidinho dos adolescentes, que curtiam sua banda de um único sucesso. Saiu sem camisa em uma revista, exibindo no peito uma tatuagem de duas pistolas Long Colt 45 cruzadas. A legenda da foto era “jovem de atitude”. E ele acreditou nisso. Agora, sócio mais novo de uma agência laureada em Cannes, ainda discotecava em festas de vez em quando, tirando o set list de um pen drive. Enquanto isso, desejava ser escritor.

Lá pela sexta sessão, contou que faria uma série de exames de saúde. Felicitei-o, pois é sempre bom se precaver. Sua torcida, porém, era pra descobrir alguma enfermidade. Com sorte, teria uma cirrose, pois passou a virar o caneco na toada de um desses autores beberrões americanos. Brindava a Hemingway com mojitos, a Fitzgerald com gim, a Faulkner com uísque, a Kerouac com marguerita. Também tinha começado a fumar, mas sem a mesma classe de um Vargas Llosa ou de um Nelson Rodrigues com o cigarro na mão. Segurava e tragava como maconha. Não era a mesma coisa. Colocou a ideia de lado por não se lembrar de grandes obras dedicadas ao tabaco.

Na semana seguinte, Olavo levou seu plano de decadência mais longe ao anunciar ter largado a sociedade na agência de publicidade. Pior, começou a trabalhar em um cartório. Foi o trabalho mais burocrático que encontrou. Passava o dia atendendo pessoas, tirando fotocópias e carimbando papéis. Pense nos grandes escritores brasileiros que passaram anos presos ao funcionalismo público só pela expectativa de alguma estabilidade financeira, teorizou. Primeiro, citou Machado de Assis, um carreirista, de tipógrafo a diretor do Ministério da Aviação. Foram quarenta anos que lhe renderam dezenas de personagens retratados como seus colegas de repartição. José de Alencar, Lima Barreto, Carlos Drummond de Andrade, todos teriam se abrigado à rotina do funcionalismo estatal enquanto escreviam preciosidades.

Sessão após sessão, meu paciente parecia mais decidido a tornar sua vida um inferno. Curiosamente, ele ficava eufórico ao contar sobre cada degrau superado – no seu caso, regredido – e eu me perguntava se essa alegria não seria prova de que seu objetivo, a alma estilhaçada, estava ainda muito distante. Mesmo assim, houve uma evolução – ou retrocesso, não sei mais dizer. Após tantos exames, Olavo descobriu uma diabetes. Ou melhor, foi considerado pré-diabético, pois o índice glicêmico estava um pouco elevado, indicando uma disposição pra diabetes tipo 2. Se escrevesse uma obra-prima sobre isso seria o primeiro. Com certeza, era reflexo da mudança de hábitos. Havia largado os esportes e comia muita porcaria, chegando a ganhar peso.

Voltei pra casa dos meus pais, lá no Leblon, revelou na décima sessão. Fiquei inconformada. Sério? Mas em que isso vai ajudar? Tu me disse que foi uma criança tão alegre. Sua justificativa era não conhecer seus velhos tão bem assim. Minhas memórias dessa época são fragmentadas, disse, quero experimentar a rotina com eles agora, com mais consciência do mundo. O jovem imaginava ter perdido muito dessa relação por causa do verniz de lar sadio. Kafka levou o fantasma do pai opressor pelo resto da vida, lembrou. E ele está lá, em “Metamorfose” e em outras obras. O cara escreveu uma carta de cem páginas reclamando do velho, exaltou. Quero esse destempero! Perguntei se seus pais concordavam com o retorno. Como eu imaginava, ficaram um pouco ressabiados. Conforme explicou, com os filhos crescidos, já estavam guardando as energias para os netos. Isso é bom, alegrou-se. Talvez eu consiga provocar algum conflito aí.

Da namorada atriz não falava há algumas semanas. Depois, li em uma revista de fofoca no consultório do dentista que os dois já estavam noivos quando ele terminou tudo. Como ela era bem mais famosa, ninguém se importou muito com o paradeiro dele. Ia ser mesmo estranho explicar como foi expulso de casa pelos pais e acolhido por um primo no sofá da sala de um estúdio em Niterói. Na décima sétima semana, chegou saltitante ao consultório. Estou sofrendo horrores por amor, vibrou. Mas com esse sorriso largo na cara, questionei. Foi atrás da única mulher que se lembrava de já tê-lo rejeitado. Isadora, uma namoradinha de infância. Tipo um primeiro amor? Mais ou menos, explicou. Eu tinha doze anos, estudava na mesma classe, a gente dançou a noite toda na festa de uma colega e estraguei tudo quando preferi dar meu primeiro beijo em outra menina, mais velha. Isadora nunca mais quis saber dele.

Na verdade, ele não voltou a trocar nenhuma palavra com a pobre e desprezava seus olhares melancólicos na sala de aula. Foi procurá-la e concluiu que ainda havia mágoas na menina, hoje uma estilista moderninha com sua própria marca. A princípio, ela não aceitou seu convite de amizade no Facebook. Também não adiantou descobrir onde ficava o ateliê dela em Santa Teresa e bater por lá com flores. Ela o considerou um lunático por dar as caras após tantos anos. Olavo só sossegou quando levou um soco do namorado da coitada ao tentar invadir a casa deles. Nunca me senti tão rejeitado, insistiu. Imagino que Jorge Luís Borges compreenderia o que estou passando. Foi quando perdi o compasso. Não queria deixá-lo saborear essa falsa derrota. Borges morou com a mãe castradora até os 70 anos e só se casou quando ela morreu. Antes, teve uma vida de amores platônicos e rejeições. Não é nem um pouco a mesma coisa, estabeleci.

O caso estava fora de controle. Fiquei preocupada quando o rapaz faltou a duas sessões sem dar qualquer satisfação. Um dia, fui chamada a um hospital pra identificar um moribundo que suspeitavam ser meu paciente. Fiquei surpresa ao me deparar com Olavo, descabelado e barbudo, amarrado a um leito, dopado. Ele foi encontrado no Largo do Machado, maltrapilho, delirando e melecado com Nutella. Tudo indicava que passou dias comendo só aquilo, pois sua taxa de açúcar estava altíssima. Não levava documentos e nem sabia seu nome, apenas tinha o cartão do consultório de sua psiquiatra.

Lady, please, help my poor soul – soltou ao me ver, remetendo sem pudor às supostas últimas palavras de Edgar Allan Poe.

Refeito do susto e reunido à família, o pretenso escritor veio até mim uma última vez. Ao chegar, desolado, alegou ter esgotado seus esforços pra dilacerar seu âmago. Restava apenas morrer jovem. Isso também não faria dele um escritor, visto que lhe faltariam obras póstumas. Cogitou, então, o suicídio. As referências, porém, o amedrontavam. Afogado, como Virginia Woolf? Intoxicado com gás, a exemplo de Sylvia Plath? Com cianureto, seguindo Horacio Quiroga? Nunca teria coragem. Mesmo depois de todas as tentativas de se martirizar, ainda sentia o calor da brasa da felicidade e queria viver. Foi quando percebi qual era meu papel nesse tresloucado processo de autoconhecimento.

Se ainda se sente feliz, só posso concluir que tu não tá na posse de suas faculdades mentais, decretei. Esse estado de satisfação plena com a vida, ignorando toda amargura que te cerca, pode ser classificado como um distúrbio. Pela primeira vez, deixei Olavo mudo por valiosos instantes. Quer dizer, começou reticente, que por me considerar uma pessoa feliz… eu sou… doido? Na verdade, eu nunca usaria esse termo. Mas comentei que, de Platão a Freud, a ligação entre loucura e genialidade sempre existiu. Foi uma epifania discreta, por mais que eu tenha ouvido um leve estampido. Em seguida, Olavo se deu alta, agradeceu comovido e foi pra casa. Enfim, escreveu. Nunca achei tempo de ler seu livro. As seiscentas páginas me deram preguiça. Mas fui ao lançamento um ano depois e ganhei uma edição autografada. Em seguida, isolou-se da sociedade carioca e passou o resto da vida vivendo como um camponês no norte de Minas Gerais. Nunca o procurei pra saber se a inspiração foi Salinger ou Tolstói.

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